sábado, fevereiro 11, 2006

Tentamos as vezes que forem precisas.

Ultimamente a minha mesa anda um caos com fichas do corpo humano, de constelações estrelares e de poliminós. Uma ponta do livro do professor aparece timidamente por baixo dos desenhos das teias de aranha desenhadas pelos miúdos do primeiro ano a fim de interiorizarem a letra T.

- Professora, posso desenhar a aranha? – perguntou de manhã o Luís Carlos nos seus precoces e muito decididos seis anos.
- Desenha! E até podes colocar uma mosca morta pendurada num fio se quiseres.

Ainda estou no intervalo do meu almoço mas a última meia hora dedico-a a arrumar os papéis para prosseguir a parte da tarde. Procuro o ofício que informará o agrupamento da visita de estudo que a escola efectuará na semana seguinte.

Num instante toca para entrada e no último minuto encontro o bendito papel. Os miúdos são pontuais. Geralmente fazem fila à porta esperando a minha ordem para entrar. Porém, desta vez, a Natércia rompe pela porta esbaforida em direcção à minha secretária. De faces vermelhas a arderem de ansiedade conseguiu dizer por entre a respiração ofegante.

- PROFESSORA!!!. O Tony mandou um chuto e a bola foi parar lá a cima à árvore e ficou lá presa e o Bruno quis tirar de lá a bola e mandou um chuto na dele e ficou lá também.

A Modesta, em silêncio, entrega-me um napron de papel feito por ela, dividindo a minha atenção entre ela e a colega.

- O quêeeeeee? - disse eu tentando imitar a pronúncia do norte, lendo simultaneamente a dedicatória que a Modesta escreveu para mim a um canto do napron. “para a profeçora…”. Costumo mandar escrever os erros ortográficos vinte vezes cada um, mas desta vez não me atrevo. Deixo a oportunidade para a semana seguinte.

- Bom! Explica lá melhor. Mas com calma. Com calma. – disse eu.

Ela explicou mais uma vez. Ok, rapaziada. No fim da aula vamos lá tirar as bolas.
Quando faltavam dez minutos para acabar a aula, peguei em dois dos rapazes. Passei pela despensa e peguei numa esfregona. Andámos na direcção da suposta árvore.

- Professora, as bolas estão ali. – e o Martinho apontou para o alto.

A árvore era enorme. De ramos completamente despidos pelo Inverno segurava magestosamente duas bolas muito perto uma da outra como se fossem dois ninhos… ou dois ovos.

Fiquei a medir a altura da árvore com os olhos. Senti-me ridícula com a esfregona na mão. Desejei uma rabanada de vento, à boa maneira de Mary Poppins, mas nada. Nem um ventinho soprava.

- Pois é, rapazes. Quis ajudar mas não consigo. Estão muito altas.

No dia seguinte logo pela manhã os miúdos entram triunfantes, dizendo-me que já conseguiram tirar as bolas.
- Como é que conseguiram? – perguntei curiosa.
- Com a bola do Carlos do 4º ano.

sábado, janeiro 21, 2006

Os versos têm segredos


Olho para a minha planificação mensal. Entre os vários conteúdos para dar neste mês constam as rimas. Pego no meu dossier de lombada larga, cheio de textos arrumados por temas, religiosamente bem conservado e aumentado ao longo dos anos da minha docência e, que este ano, em vez de ir ao meu ombro, no saco azul habitual a espreitar o céu lisboeta, foi num cesto para roupa engomada de plástico amarelo às escuras de um porta bagagens parar ao Minho.

Não que ache os manuais desprovidos de senso. Organizados segundo o programa educativo ajudam-me a segui-lo sem me perder. Mas como não existe o manual perfeito, e entenda-se aqui o conceito de perfeição como a minha sabedora aprovação, faço eu o meu manual. Todos os professores têm um só deles.

Acabados de chegar à sala, os miúdos falam enquanto tiram cadernos e estojos das mochilas. Vão-se acalmando à medida que vão passando para o caderno a data e o plano de aula. O plano dá-lhes uma perspectiva do que farão naquele dia pelo que terão de organizar o seu ritmo em função da tarefa a cumprir. Os mais curiosos querem saber o significado dos conteúdos antes do tempo.

- Professora, o que são rimas?

Ainda estou de costas para eles a escrever as últimas palavras no quadro mas reconheço a voz do André.

Faço que não ouço. Não é por ai que quero começar. No fim, saberão o que são rimas e eu não precisei de explanar a teoria. Farão o link sozinhos da prática à representação racional.

De pé, encostada ao quadro, de frente para os alunos, leio o texto de Carlos Pinhão.

“Gil estava apaixonado pela sua colega Matilde. Fazia-lhe versos em que paixão rima com coração e amor rima com flor e às vezes com dor porque o Gil pensava que a Matilde não gostava dele.”

Riem e olham uns para os outros, camuflando algo que fazem há já algum tempo: versos que falam de paixonetas. Só que não rimavam e os do Gil são mais engraçados porque rimam e a rima é como se fosse uma espécie de música que damos às frases.

- Ok. Vamos lá imaginar como seriam os versos do Gil para a Matilde.

Todos estão numa agitação latente da imaginação. O entusiasmo estala. Vou lá para trás, reduzindo ao máximo a minha presença. Gritam-se versos. Repetem-se versos. Escrevo o que dizem, e de vez em quando, intrometo-me:

- Não, não, a palavra final desse verso tem de rimar com a palavra final do verso de cima. Arranjem outra.

Os versos ficam feitos. Os versos ilustram-se. E todos sabem que rimas são palavras que têm na sua terminação a mesma conformidade de sons.
Para concluir lanço para o ar que os versos têm segredos. que às vezes rimam mas outras vezes não, mas que são sempre poesia. (como os de Alberto Caeiro que nunca rimam mas que comportam em cada palavra ha um segredo)


(Será que ouviram?)


da Leonor

sábado, janeiro 07, 2006

Quero Contar uma Coisa


A corrida à casa de banho começa a meio da manhã, indo até ao toque da saída, a meio da tarde. Existe um círculo de cartolina verde de um lado e vermelho do outro junto à porta que controla as saídas da sala, pois determinámos que só seria permitido lá fora um aluno de cada vez. E embora os miúdos já saibam que eu deixo sempre ir à casa de banho vêm sempre pedir-me autorização.

Jéssica, durante a realização de uma cópia, levanta-se e aproxima-se de mim que, sentada na minha secretária, dava uma vista de olhos na apresentação de alguns cadernos já terminados, sob o olhar angustiante dos donos aos movimentos da minha esferográfica vermelha.

A escassa meia hora de terminar a aula, com tantos pedidos já feitos com as respectivas autorizações já dadas, nem deixo a Jéssica falar e respondo : vai num pé e volta no outro.

Porém, o assunto era outro. Jéssica manteve-se de pé na minha frente. Olhei para ela. repeti: podes ir.

- Professora… quero contar uma coisa. - disse a Jéssica baixinho, tímida como só ela é.

A curiosidade já me tinha franzido a testa. A experiência induziu-me a esperar uma queixa muito subtil de algum colega.

- Professora… a minha vaca ontem teve um tourinho.

Nunca adivinharia o que ela tinha para me dizer. Quando recuperei do pasmo consegui dizer:

- Que lindo Jéssica. Conta como foi.

E os papéis inverteram-se. Daquela vez foi a professora que, encantada pela magia de uma história que não era de fadas, ouviu a aluna.


da Leonor

É Preciso Acreditar



Na escola, cada mês do ano marca sempre um evento. Novembro é o mês do Magusto. Em Março começa a Primavera e é o mês da árvore e do Pai. Maio é o mês da Mãe. Em Julho acabam as aulas. E por ai fora. E assim, os miúdos vão tomando conta dos dias, dos meses e dos anos.

Dezembro chegou e com ele os últimos dias do primeiro período escolar. É tempo de falar da tradição do Pinheirinho, do nascimento de Jesus, da figura do Pai Natal.

Adepta ferrenha da ardósia e do giz desenho no quadro um rectângulo com os lados paralelos mais longos na vertical, presumível exemplo de uma folha A4 “em pé”.

- Hoje vamos aprender como se escreve uma carta. – digo eu, tentando preservar um costume que se perdeu com a era dos emails. – e vamos escrever a quem? Mais tarde, quando já souberem como se faz, irão trazer o envelope e o selo e mandar cartas uns aos outros. Mas agora precisamos de alguém. Pode ser o Pai Natal.

- Mas, professora, o Pai Natal não existe.

Desde que ensino, que ouço sempre a mesma coisa em todas as turmas, do primeiro ao quarto ano. A expressão não é nova para mim. Contudo fico sempre terrificada quando a ouço. Aproveito a deixa e ponho uma cara de profundo espanto, começando a narrar uma história de improviso, sem livro na mão, sem que eles percebam, para já, que vamos dar o salto para a ficção.

- Não existe!!?? – pergunto eu.

-Não! – respondem eles.

- Então como é que os presentes aparecem na chaminé?

- São os pais que compram e os metem lá.

- OK! Mas como é que aparecem na minha chaminé? Não são os meus pais que os metem lá.

Os miúdos não respondem. Alguns ainda tentam a contra argumentação mas ficam-se pela boca aberta presa na palavra. Que indecência professora, aproveitar-se assim da inocência dos seus alunos. Decido descansá-los e contar-lhes realmente como as coisas são para acabar de vez com alguns equívocos.

- Vocês têm razão. São os pais que colocam os brinquedos na chaminé ou na sala junto do Pinheirinho. Por uma razão muito simples. O Pai Natal é só um. Ele leva o ano todo a trabalhar juntamente com os duendes, aqueles homenzinhos pequeninos vestidos de verde, a fabricarem brinquedos para todos os miúdos do mundo. Mas apesar da ajuda dos duendes e de ele poder voar no céu com o trenó a uma velocidade espantosa, ele é só um e não consegue fazer tudo sozinho. É então que ele pede a ajuda dos pais porque só uma noite não chega para ele entrar em todas as chaminés.

Alguns, os mais crédulos, vacilam na fantasia do meu conto. Outros, os menos crédulos, deixam-me acreditar que acreditaram.

Seja como for, nas cartas ao Pai Natal surgem frases finais como esta: “Pai Natal, deixa os brinquedos à porta da rua "caminha" chaminé é muito fininha e depois não cabes.”


da Leonor


Publicado em 17 de Dezembro de 2005 no blog Ex Improviso http://leonoretta.blogspot.com

As Sombras da Caverna




Um dia a Colibri mandou-me esta imagem.

(Obrigado Colibri)



A “Alegoria da Caverna” foi um dos primeiros textos que eu li nas aulas de filosofia do antigo 7º ano do então chamado Curso Geral, que hoje corresponde ao 11º ano. Na altura já achei o texto fascinante mas confesso que, devido à minha pouca experiência de vida, logicamente, não o entendi como o entendo agora. De qualquer modo, ficou o gosto por querer saber mais e, sobretudo, querer sempre respostas para as minhas questões.

A Caverna de Platão constitui uma das mais encantadoras metáforas da cultura ocidental sobre a educação. Os prisioneiros da Caverna retratam a condição humana face ao conhecimento, isto é, segundo Platão o homem nasce escravo da sua ignorância e, se não tiver ninguém que o ajude, não toma consciência dela.

Nesse estado de escravatura, as pessoas têm uma forma limitada de olhar o mundo. Apesar disso, pensam que o compreendem. A maioria, sente-se tão confortável no seu estado de ignorância que se recusa a mudar.

À medida que os prisioneiros da Caverna são levados a ver o mundo fora dela vão percebendo a existência da “luz”. Libertados, ficam confusos com tanta “claridade”. Querendo regressar à sua condição anterior, já não podem porque se tornaram conscientes do mundo circundante.

Para Platão, educar é liberdade porque a educação liberta-nos da ignorância. Educar é a arte de motivar para aprender. É dar os meios, estar presente no percurso para que a pessoa possa encontrar o caminho. É um processo lento que expõe a pessoa à verdade.

Perante tudo o que foi dito, e aproveitando a deixa para concluir, podemos perguntar então, o que se entende por educação em Portugal, quando os sucessivos Ministérios que cuidam dela, apresentam tão fracas condições para que o ensino/aprendizagem se cumpra.

Ou, não estarão os nossos governos interessados em libertar prisioneiros da sua Caverna, em formar pessoas conscientes do seu mundo?

De facto, escravos da nossa ignorância, tornamo-nos súbditos de meia dúzia “iluminados”.
Nesse caso, está tudo bem e perdoem-me, as inteligentia, se um dia tive o azar de me encandear com a luz de Platão e agora querer respostas a que não tenho direito.


da Leonor


Publicado em 19 de Novembro de 2005 no blog Ex Improviso http://leonoretta.blogspot.com

Tenho Cinco Pintainhos



Tenho uma turma de 23 alunos. 18 do 3º ano e 5 do 1º prontinhos a começar. Uns fizeram seis anos há poucos meses. Outros irão fazê-los agora em Dezembro. São cinco pintainhos. Uns esfarrapam-se a trabalhar. Outros esfarrapam-se a brincar.

Não é a primeira vez que tenho vários níveis na turma. Mas é a primeira vez que tenho o 1º ano assim tão pequeno a iniciar a aventura das letras.

Entre a correria do 3º ano que me diz constantemente “já fiz” e um 1º ano que agarra a minha camisola perguntando a cada letra que desenha no caderno “é assim?”, por vezes abstraio-me só num deles, esquecendo o outro completamente.

E foi num desses esquecimentos que eu não vi a Márcia a pintar as unhas.

A Márcia é um dos cinco pintainhos que se esfarrapa a trabalhar, juntamente com o Luís. Bem juntos à minha secretária ouço-lhes as conversas em surdina. Falam do campo, da catequese, do senhor padre, da mãe, dos patinhos que nasceram. Muito conscientes do seu dever trabalham enquanto conversam.

O Luís, uma vez por outra leva uma bola vermelha no caderno. A última foi por ter andado a correr atrás da Catarina, linda de morrer, juntamente com os colegas mais velhos da turma para lhe dar beijinhos na boca, segundo as queixas das meninas. Muito honestamente, levantou o braço quando perguntei pelos nomes dos perseguidores.

- Não acha que ainda é muito pequeno para olhar para a Catarina? – perguntei com um ar muito sério, treinado para impor respeito. Ninguém desconfia que me estou a rir.

- Não volto a fazer. - disse ele, de expressão solene.

Mas a Márcia tem levado sempre bola verde. Nem uma amarela consta do seu cadastro. Alertada por um dos rapazes mais crescidos, acordei para me dividir novamente entre duas classes. Tirei das mãos da menina o frasco do verniz e guardei-o na gaveta da minha secretária. Gritei-lhe uma bola vermelha e nada de intervalo no dia a seguir.

Retornei às leituras do 3º ano. Encostada ao meio do quadro vigiava, defraudada, os mais pequenos. A Márcia parou de trabalhar. De cabeça apoiada numa mão, triste, de pensamento lá longe, quebrava uma das regras da sala de aula: riscava a mesa com o lápis.

O Luís, muito carinhoso, consolava a amiga que partilhava com ele desabafos telúricos. “Oh Márcia, eu já lebei um bermeilho, bô pedir à professora para amanhã ficar aqui no interbalo contigo”. A Márcia continuava a riscar a mesa, aumentando os riscos à medida da sua tristeza.

Dirigi-me à minha secretária e de lá chamei a Márcia para conversar sobre a bola vermelha. Ao meu apelo, escondeu os olhos nas mãos em concha, começando um choro compulsivo.

Entre lágrimas espessas, baba e ranho, contou que não podia levar bola vermelha porque senão não ia ao casamento.
- Qual casamento?
- … o casamento de uma mulher, balbuciou no meio de um milhar, duas centenas e sete soluços.

Ai a minha vida. O que é que eu faço agora? Se eu tiro a bola… mas se eu não a tiro…

- Vamos tirar a bola do caderno. Mas o castigo mantém-se. - disse eu.

Ela tinha feito uma grande bola vermelha no topo do caderno. “safando” não saia. De modo que tive de cortar o bocado de papel com a tesoura. Ao lado do papel cortado ficou uma verde, esfarelada de água salgada.

Já quase no fim da aula, mandei arrumar o 1º ano enquanto o 3º acabava a cópia. E à espera do toque fui conversando com os pintainhos. A Márcia já ria e contava-me dos campos que tinha, das estufas de cebolas e de alfaces. Aquela gente cultivava os legumes que eu compro embalados no supermercado e que eu penso que nascem nas prateleiras.

- Professora, tenho um espantalho. Tem uns olhos assim. – fez uma argola com o indicador e o polegar e colocou nos olhos dela.

Não contive as gargalhadas de contentamento por alguém me dizer que tinha um espantalho. Não um bonequinho de pelúcia, ou um bibelot de barro, mas um espantalho “de carne e osso”.

No dia seguinte, peguei n' O Feiticeiro de Oz. Vamos lá dar vida a esse espantalho.


da Leonor


Publicado em 9 de Novembro de 2005 no blog Ex Improviso http://leonoretta.blogspot.com

Embaladas pelo Vento





Reflexos de Outono (de Washington Maguetas)

As regras são necessárias ao andamento da vida. Mas se por um lado são necessárias por outro são aborrecidas quando instaladas na rotina. Ainda bem que toda a regra tem excepção. Para fugir à tal rotina de vez em quando.

Não gosto de ensinar gramática. Digo… a regra explícita: isto é assim porque é assim. Deste modo, dispenso a maçada de leccionar o tratado das leis que regem a língua materna, partindo sempre de frases feitas pelos miúdos para tornar a tarefa mais atraente tanto para mim como para eles.

Depois de termos falado das folhas acastanhadas, avermelhadas, amareladas e encarquilhadas que emprestam cores mornas e sons crocantes aos chãos de Outono e deixam as árvores despidas à espera do vestido bordado de mil flores em fundo de tons esverdeados que a Primavera (a nossa prima preferida) há-de trazer depois do Inverno ataco com os verbos da primeira conjugação.

- Muito bem! Hoje estou sem imaginação e preciso de uma frase com o verbo dançar.

Podia ter pedido um verbo qualquer: andar… saltar… mas saiu dançar.

Os miúdos gostam de fazer corridas nas tarefas. E assim, pouco depois a Natércia diz “já fiz”, esperando um muito bem da professora que não aprecia e não promove este tipo de competição.

- Ai já?! Então vai lá ao quadro escrever a tua frase. - disse eu.

E a Natércia escreveu assim uma das frases mais bonitas que jamais li sobre uma dança e um sono de folhas outonais.


“No Outono as folhas ficam velhas e o vento de Outono sopra e as folhas caem embaladas pela dança e quando caem no chão dormem um profundo sono.”



da Leonor

Publicado em 23 de Outubro de 2005 no blog Ex Improviso

http://leonoretta.blogspot.com

Trabalhos de Casa

Abro a porta da rua e sou apanhada pelo nevoeiro. Estamos em meados de Outubro mas aqui no Minho o nevoeiro é frequente logo pela manhã.

Aponto o comando para o meu Fiat Uno velho de tinta a cair aos bocados. Apesar do seu aspecto zombi cumpre a sua função, levando-me fielmente de casa para o trabalho e fazendo depois o percurso inverso.

Entro no carro. Dou à ignição. Acendo as luzes. Já na auto estrada atento às setas que me indicam a cidade do Porto. A determinada altura viro para Esposende. Passo a ponte velha de Fão. A trepidação provocada pelas suas frequentes lombas desmancha-me sempre a posição do retrovisor.

Antes do cemitério pleno de jazigos austeros viro para uma estrada única com casas de um lado e do outro, caixas de fósforos quase sempre de uma porta e duas janelas. Reduzo o andamento para não chocar com nenhuma bicicleta ou motoreta que surge repentina de caminhos paralelos. Ultrapasso o tractor do José Manuel. É a mãe que o transporta todos os dias de manhã para a escola indo de seguida para o campo.

Chego à escola. O cheiro a estrume dos campos cultivados invade o ar. Vejo o Marco António na sua bicicleta , carregando sempre um pendura com ele. Cabeça no ar. Bom coração. Conquistas os teus amigos com as boleias. Apesar dos valentes castigos traduzidos em tabuadas a multiplicar pelo número de vezes da minha vontade caprichosa de professora pode tudo, dizes-me sempre “bom dia professôara” com o melhor sorriso do mundo. Sua cabeça de vento. Fizeste o trabalho? Fiz sim, professôara.

Tenho andado sempre pelos bairros economica e socialmente carenciados de Lisboa. Pretos e ciganos na sua maioria. È a segunda vez que tenho uma turma só de miúdos brancos, de primeiro e de terceiro anos limpos sem osso, sem repetências.

Pelas nove horas em ponto os miúdos formam fila à porta da sala, esperando a minha ordem para entrar. E começa o dia: chamada, data no quadro, abrir cadernos para ver quem fez o dever de casa.

Passo nas primeiras mesas. Marco vistos a vermelho, contrariando as psicologias de alguns pedagogos que dizem que a referida cor desmotiva a aprendizagem dos petizes, traumatizando-os para toda a vida. Chego à vez da miuda de tranças que herdou o nome da avó materna: Modesta

- Professôara… num fiz os debiêres, doía-me a barriga.
- E agora dói-te?
- Nãoe. Já passoue.
- Então fazes no intervalo.

Modesta e os outros espantam-se pela ineficácia da desculpa, percebendo que rapidamente terão de arranjar outras. Filipe também não fez os trabalhos.

- Porque não fizeste?
- Fui ajudar a minha ábó a cortar milho para as bacas. Num consegui fazer. - A terminação “er” enche-lhe a cavidade bucal.

Fico num dilema. Privar a Modesta do intervalo pela desculpa esfarrapada e não privar o Filipe pela ajuda prestada… bom! Penso com os meus botões, por hoje o castigo mantém-se, é a minha malvada dignidade que está em jogo, amanhã não usarei o intervalo como punição se tiver de punir.

Tenho andado sempre por Lisboa, em bairros carenciados económica e socialmente, de brancos, pretos e ciganos, que não gostam e nem entendem a escola, que se desculpam com dores de barriga para fugirem aos deveres escolares. Mas o Filipe, a Jéssica, e outras tantas crianças da minha classe de oito anos de idade já conhecem a responsabilidade de ajudar a família no campo para garantir o sustento do clã.
Muitas delas não irão longe nos estudos por falta de incentivo dos parentes para quem escrever o nome e fazer contas com "e vai um" é quanto basta para não se enganar nos trocos da mercearia. Não obstante, quando chegarem à idade de dezasseis anos já conhecem o mundo do trabalho, enquanto que os meninos de Lisboa conhecem o roubo.

Fiquei envergonhada.

da Leonor


Publicado em 15 de Outubro de 2005 no blog Ex Improviso http://leonoretta.blogspot.com

Estigma



Foto de Luc Selen

Nos momentos de expressão plástica, a sala de aula transforma-se na Feira da Ladra. Incapazes de ficarem sentados nos seus lugares a pintarem os seus desenhos, os miudos levantam-se amiúde, trocando lápis de cor e perseguindo ferozmente o célebre lápis cor de pele, um rosa creme muito claro, para colorir as suas representações humanas, que independentemente da etnia do autor, são sempre caucasianas.

A hora é livre, o desenho é livre e eu abandono-os à sua criatividade enquanto me abstenho da minha, apontando numa folha os pacotes de leite consumidos pelos alunos durante o dia, assim como as faltas que deram no livro de frequências.

Neste ambiente de troca de objectos cilíndricos cromáticos e partilha de ideias feitas linhas e manchas no papel fala-se alto, como aliás se fala em qualquer feira. A Rita, miúda negra de doze anos, pergunta-me: a professora gostava de ser negra?

A pergunta abana-me.
Fosse qual fosse a resposta, ela iria ter sempre um peso decisivo na afirmação da identidade da Rita.
------------------------------------------------------------------------------------------------

Identidade é a consciencia que o individuo tem de si próprio, do lugar que ocupa no mundo. A identidade constrói-se nas experiências vividas através de um jogo de identificação no qual uma pessoa assume características do seu grupo, ou seja, cada um constrói o seu eu através das relações que estabelece com os outros.

O desejo mais primário do homem é o de ser amado e este ideal de ser aceite leva-o a corresponder a uma série de expectativas do outro, tornando-o obediente, fazendo com que a sua identidade seja moldada em troca de estima condicionada.

Na infância, o pincel que desde o inicio dá cores ao nosso retrato está nas mãos da família que nos pede que sejamos aquilo que ela deseja e não aquilo que somos. Mais tarde na adolescência passamos a identificar-nos com o nosso grupo de pares e a olhar-nos com os olhos dos outros.

Esta identidade pessoal e social são dois lados juntos, o de dentro e o de fora. O individuo possui uma identidade real, a dele, aquela que é a sua na realidade, e uma identidade virtual que lhe é atribuida pelos outros e que não lhe pertence, que ele vai construindo conforme as situações, com a finalidade de agradar.

O problema da identificação é que torna o individuo como alguém moldado pela ideologia dominante, interiorizando imagens consideradas perfeitas pela sociedade. Daí, que ele tenha dificuldade em aceitar quem não corresponda moral ou fisicamente a estes modelos sociais, impondo-lhe um estigma.
O sujeito que possui uma marca física que o torna diferente dos outros sente-se como alguém normal, igual aos outros, como se não a tivesse porque essa marca não o diminui. No entanto, o resto da comunidade, exclui-o fazendo-o sentir a toda a hora a incapacidade que essa marca lhe confere, fazendo com que ele se sinta marginalizado e desprezado.

Penso que o único modo de tentarmos resolver o problema de afastamento do outro que não se identifica connosco, seja porque motivos for, é libertar-nos das teias de aranha que prendem os nossos sentimentos e pensamentos em relação ao modo como encaramos o corpo do outro, tornando-nos aberto e livres do paradigma ditado pela sociedade.
------------------------------------------------------------------------------------------------

Respondi à Rita, explicando o meu ponto de vista sobre a cor da pele tantas vezes questionado por mim ao longo do processo da construção da minha identidade.

"A cor da nossa pele é um acidente. Não pode ser mudado. Mas o nosso carácter não é um acidente. Depende de nós. Se fores boa pessoa os outros gostarão de ti por fora e por dentro e tu gostarás de ser negra."

Fosse qual fosse a resposta, ela iria ter uma peso decisivo na afirmação da identidade da Rita.

da Leonor



Publicado em 25 de Julho de 2005 no blog Ex Improviso http://leonoretta.blogspot.com

Carta à Directora



No ano passado quando verifiquei a morada da escola onde fiquei colocada, as minhas orelhas começaram dolorosamente a ferver como sempre acontece quando sou tomada de um terror súbito e violento.

Todavia, não tinha motivo para tal pois fora eu a grande culpada de ter ido lá parar. Curiosamente foi logo a primeira escola da minha escolha. Mas juro! Juro que quando coloquei o código da escola no boletim eu não sabia o que estava a fazer. Não sei o que se passou. Não me lembro.

A zona da escola é famosa pela sua baixa condição social e económica. Mas eu também já tinha alguma experiência de outras escolas situadas em zonas menos convidativas e pedi ao meu anjo para me convencer do meu destino.

Cheguei à escola, muito bem disposta, por acaso. O sítio… deserto e bolorento. E ao longo do ano sempre o achei deserto e bolorento. Não obstante, a escola era bonita.

Tu, directora, simpática. Muito. De sorriso franco, cabelos caídos nos ombros, já branqueados, com uma franja que te conserva o ar revolucionário e idealista dos estudantes dos anos 70, logo começaste a falar dos miudos da minha turma. Um por um, mostrando que os conhecias como as linhas da palma da tua mão. E conhecias. Recebeste-me de braços abertos que assim se mantiveram durante o ano inteiro em que trabalhámos juntas.

Tu, Luísa, calma, benevolente, experiente das necessidades afectivas das crianças pela sua atitude desafiadora, disfarce de medos infindáveis de maus tratos psicológicos e físicos pela parte daqueles que deveriam ser os seus mais queridos. Progenitores, alguns ausentes, outros presentes mas sempre ausentes.

Tu, Luísa, tão diferente de mim, explosão de sentimentos estapafúrdia que transforma tudo o que vê e ouve ora em brisa fresca de palavras doces ora em rajadas de gritaria ventosa se as coisas não correm consoante o desejo do meu Id, qual criança na sala de aula a puxar a camisola da professora para se fazer ouvida.

O teu gabinete tão perto da minha sala deixava-te ouvir, nas tais colunas de vento ciclónico, tantas vezes acompanhadas de trovoada, os meus apelos ao sentido de dever dos miudos, para cumprirem as regras de sala de aula. Mas, tu nunca te rebelaste contra os meus aguaceiros.

Ensinaste-me, Luísa, que se pode acreditar nas pessoas e, que se acreditarmos nelas elas escolherão sempre o melhor caminho para si e para os outros.

Ensinaste-me que não devo ter medo de morrer pela boca como o peixe, como geralmente sempre morro, por dizer sempre o que sinto, se o que sentir for a pensar no bem do outro.

Ensinaste-me também que não é a zona, que não é a população dessa zona que faz uma escola impossível mas que é o empenho dos professores que tornam a escola possível.

Agora as aulas acabaram. As reuniões brevemente chegarão ao fim e o último dia da minha estadia na escola também virá. E eu já choro uma escola que me fez tremer só de ouvir o nome e uma directora que me mostrou que não há escolas impossíveis quando os professores pensam nelas como as melhores da freguesia.

Despeço-me de ti, repetindo o brinde feito pela Sofia, no nosso almoço de fim de ano “para o ano todos juntos outra vez”.

da Leonor


Publicado em 18 de Julho de 2005 no blog Ex Improviso

Varinha de Condão



As aulas acabaram. Agora começa o trabalho de “secretaria” até chegarem as férias propriamente ditas: fazer as avaliações; decidir em Conselho Escolar quem fica retido e quem transita de ano; fazer as matrículas para o próximo ano; preencher os papéis do rendimento mínimo para garantir aos miúdos de baixa condição económica livros gratuitos para o próximo ano, e mais mapas para fazermos os registos mais inúteis que houver para fazer.

Estava sozinha na minha sala, sentada à minha secretária a preencher as folhinhas das avaliações, quando alguém demasiado pequeno para os seus oito anos acabados de fazer, se assoma à porta, esboçando um ar de surpresa por me ver: óia a puchoia.
Reconheci a deficiência na fala. E levantei os olhos das folhas que preenchia para ver o miúdo de quem já morria de saudades.

- Olá Duarte. Estás bom? – saudei-o sorrindo.

O meu sorriso foi um convite para ele entrar pela sala dentro e vir até junto de mim. Mas mesmo que não tivesse sorrido ele teria entrado na mesma porque o Duarte é dos espíritos mais despojado de restrições que eu conheço.

- Ó puchoia… vais ficá aqui até ó fim da escoia?
- Vou.

E continuei a preencher fichas.

- Atão eu venho amanhã. Adeus puchoia.

E desapareceu antes que eu lhe agradecesse a visita e lhe retribuísse o adeus.

Ao longo de todo o ano lectivo, o Duarte nunca trabalhou como os colegas. Dotado de uma enorme desmotivação, um pouco conflituoso, não conseguia estabelecer um ritmo de trabalho constante. Facilmente se aborrecia do livro de leitura, do livro de matemática, de pintar o desenho… na leitura colectiva, baixava a cabeça e cerrava os dentes.

Algumas vezes adormeceu em cima da secretária… os colegas, vendo que eu apelava ao respeito pelas necessidades do colega, não importunavam.
E eu, simplesmente fazia o que o meu coração mandava, deixava o miúdo dormir, tentando entender que espécie de vida teria ele fora da escola que o levaria a um procedimento tão caprichoso e volúvel.

Tantas vezes cheguei a pensar que era eu…que a culpa era minha.

Mudou de lugar várias vezes, a seu pedido, ora sozinho, ora acompanhado… algumas vezes interessava-se por outras coisas que via na minha secretária e eu dava-lhe, dava-lhe tudo, só para lhe comprar um pouco daquele interesse sempre ausente.

Mas se eu me sentava junto dele, com livro, lápis, borracha e afia, e fizéssemos os exercícios um a um, ele já se interessava e trabalhava. Mas nem sempre eu podia sentar-me junto dele. Eu tinha uma turma inteira para orientar e, enquanto isso, o tempo ia passando e o Duarte não aprendia. Noções de leitura, escrita e aritmética precárias… conhecimento da realidade envolvente… reduzida.

Tentei sempre corrigir-lhe as palavras mal faladas - era a minha obrigação como professora - escrevendo-as no quadro e soletrando as sílabas. Mas ele sempre falou assim como se fosse um miúdo de três anos. E todos o percebíamos, e eu até achava graça.

Na feira do livro comprei uns livros engraçadíssímos a pensar no entusiasmo do Duarte. No dia seguinte, sentei-me junto dele, e coloquei os livros em cima da mesa. Ele abriu-os e riu-se. Quando abria as páginas uns bonecos tomavam forma em três dimensões. Á medida que íamos lendo, eu ia perguntando o significado das palavras.

- O que é uma fada?- perguntei-lhe.
- É uma pechoa boa.- respondeu-me.
- E o que é uma varinha mágica?
- É um pau que ela tem na mão c' uma estela na ponta.
- E para que serve?
- Seve pa fazê nachê coisas.

Serve para fazer nascer coisas!
Ah! Duarte, Duarte. Eu estava preocupada por não saberes os sons diferentes que o X tem nas palavras e tu dás-me uma das respostas mais lindas e, a única possível, que explica o desejo louco que todo o ser humano tem de possuir objectos mágicos: fazer nascer coisas, as coisas que não temos e que queremos.



da Leonor



Publicado em 7 de Julho de 2005 no blog Ex Improviso http://leonoretta.blogspot.com

Soldadinho de Chumbo



Sou tendenciosa como professora. Tenho a mania compulsiva de pintar massas cinzentas de cor de rosa numa tentativa de incutir nas crianças que a felicidade também se encontra nos erros que cometemos pela vida fora, ou, noutra via de pensamento, nos acasos do destino, e que a esperança é a possibilidade que o homem tem, numa complexidade sistémica Moriniana, de não cairmos numa entropia.

Por outras palavras menos académicas, quero transmitir que a esperança é a oportunidade repetida que nós temos de podermos conjugar o nosso eu com os outros “tus”, qualquer criatura do mundo, e que essa capacidade é inesgotável porque sentimos e pensamos.

Mas para quebrar essa força que imprime tal orientação rosada dos finais felizes, quase no final do ano lectivo, conto a história do Soldadinho de Chumbo.

O Soldadinho não tem uma vida, propriamente, feliz. Começa logo a sua existência sem uma perna porque o acaso do destino ou o seu anjo da guarda fez com que lhe faltasse o chumbo aquando da sua criação pelo que já não é igual aos outros soldadinhos.

Mas nem por isso o Pedrinho deixa de considerar o soldadinho perneta o seu preferido o que quer dizer que há sempre alguém que gosta de nós. E nem por isso, o soldadinho deixa de se apaixonar pela bailarina que vive na orla da lareira o que significa que os limites do seu corpo não condicionam os limites do seu espírito.

Ao brincar com o soldadinho o Pedrinho esquece-o no parapeito da janela. O vento fá-lo cair para próximo de uma sarjeta. Empurrado pelas águas da chuva cai no esgota e vai parar ao rio. É engolido por um peixe. O soldadinho sofre horrores.

Mas o acaso do destino ou o seu anjo da guarda faz com que o referido peixe vá parar ao lava louça da mãe do Pedrinho e o soldadinho volta ao quarto do Pedrinho e à sua bailarina.

Agora os dois vivem na orla da lareira. Ele sem a perna. Ela com a perna no ar num passo de dança para o seu soldadinho.
A janela, mal fechada, abre-se de repente. E o vento…vuuuuuuuuuuuuuu, empurra-os para a lareira acesa. O fogo uniu os dois amiguinhos para sempre num coração com uma fivela, símbolo de um acordo eterno de esperança e felicidade.

O soldadinho não teve uma vida feliz, mas teve momentos felizes.

Ultrapasso a parte final a correr pelas sílabas para não perceberem o tremelique dos sons nas cordas vocais. Todavia, as crianças, formas de pensamento selvagem na emoção, percebem-no. Calados, esperam que eu me recomponha devagar para que eu lhes dê tempo de se recomporem a eles próprios.


da Leonoreta


Publicado em 1 de Julho de 2005 no blog Ex Improviso http://leonoretta.blogspot.com

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Porque es my vida e yo prefir vivir asy


O Paulo tem 14 anos e é cigano. Já repetiu o 2º ano várias vezes. Comigo fez o 3º ano este ano.
De temperamento emocionalmente instável e de algumas dificuldades de aprendizagem, é portador de um programa educativo individual.

O Paulo levou os dois últimos períodos a entrar e a sair da sala de aula sempre que lhe deu na real vontade. Saía para espairecer do trabalho forçado na aula. Entrava para se lavar da culpa de não lhe apetecer trabalhar. Por outras palavras, dois terços daquilo que poderia ter aprendido reduziu-se a zeros. Todavia, lá evoluiu um pouco, na leitura, trampolim para outros cálculos mentais que ainda não adquiriu.

Passei-lhe sermões a fio que pouco tiveram a ver com o reforço positivo de Piaget ou a tolerância de Brunner. Apesar da paciência dele se esgotar algumas vezes nunca se virou contra mim, física ou verbalmente. Levantava-se e disparava pela porta fora, gritando com leve tom a canção que só os ciganos fazem: Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, mãeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee.

No fim do ano eu disse quem passava e quem não passava. E durante o discurso nunca mencionei o nome dele, pelo que o Paulo, no fim, perguntou-me: e eu, professora?

Decidi fazê-lo sofrer. Para ver se ele apanhava um susto e se com esse susto ele visse que há um tempo para brincar e outro para fingirmos que algumas coisas são a sério.
"O teu caso vai a Conselho Escolar porque eu não te passo. Não posso passar uma pessoa que nunca esforçou." E com a cara mais zangada deste mundo deixei o assunto como encerrado.

Ainda que andasse pesaroso, o Paulo nunca deixou de frequentar as aulas até ao fim, esperando estoicamente pela decisão do Conselho Escolar. No penúltimo dia, passei-lhe não só o último sermão mas também missa cantada.

- Se passares Paulo, reza para que não fiques comigo para o ano porque a partir do momento em que saíres por aquela porta não entras mais. Reza Paulo, reza para não ficares comigo.

- Rezo sim professora, para ficar consigo outra vez.

As lágrimas apareceram nos nossos olhos. Mas a socialização faz-se devagarinho num processo de água mole em pedra dura no coração dos indivíduos, deixando marcas de conduta contraditória à nossa intenção e, assim, ambos baixámos os olhos para os nossos sapatos para não vermos a comoção um do outro porque um homem não chora e as professoras não podem ver um homem a chorar.

da Leonoreta

Perdemos o Campeonato


A festa de fim de ano lectivo começou no dia 1 de Junho. As actividades lúdicas têm sido distribuídas ao longo do mês.

O torneio de futebol entre turmas já começou e já acabou. Entre escolher o capitão de turma, o jogador que ficava na defesa, na baliza, no ataque e ainda quem ficava no banco para as substituições até chegarmos à final, passaram duas semanas a voar.

Facilmente fomos passando de eliminatória em eliminatória com classificações de dez a zero, onze a zero, doze a zero… até ao jogo da meia final que nos levaria ao campeonato a realizar-se no último dia de aulas, se ganhássemos.

Os resultados obtidos ao longo dos jogos estavam a colocar o nosso ego acima da média da modéstia disfarçada. Contudo perdemos a meia final. Os meus jogadores ficaram prostrados no chão, quais Ronaldo, Figo, Beto, olhavam para mim envergonhados. E de certo modo, medrosos porque antes tinha-lhes dito que se perdessem o jogo os chumbaria a todos.

Chegados à sala foi tempo para descansar e numa espécie de mesa redonda soltei o discurso do mau dançarino que diz que o chão da sala está torto.

- Calma! Perdemos porque alguém tinha de perder.
- Sim!
- Um dia é da caça e o outro é do caçador.
- Sim.
- Há mais marés que marinheiros.
- Não está triste professora?
- Não. Claro que não. Nós perdemos mas jogámos bem.
- Sim.
- Participámos com empenho, por amor à camisola que é o mais bonito que há.

Mandei-os para o recreio mais cedo. Já iam mais animados. Aquele discurso tinha sido mais para me convencer a mim do que para convencê-los a eles.
Naquela altura uma colega telefonou-me.
- Estás boa?
- Ahhhhhhhh, acabo de perder o campeonato de futebol. Estou de rastos.
- Bem feita. Queres os troféus todos só para ti.

Na sala dos professores, qual Luís Campos, humilhado pela derrota dos seus jogadores, tive de enfrentar a treinadora da equipa vencedora, qual José Mourinho, com ar triunfante.

Isto foi tudo a brincar, mas penso naqueles homens do futebol a sério que sofrem derrotas a sério e humilhações a sério.

Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Perdi o Campeonato.


da Leonoreta

O Valor de Sapo



A maior parte dos meus alunos são de etnia cigana. Os restantes repartem-se pelas etnias africana e lusa.

Noutro dia, contava a história da Polegarzinha… “então a menina foi raptada para casar com um grande sapo”… quando o grito do Bruno me interrompeu. Aflito, segurava a cabeça com as duas mãos.

- Ai professora! Não diga isso!

- O quê? – perguntei. Os outros miudos ciganos perceberam logo a angústia do colega.

- Professora, esse animal é mau para os ciganos. – explicou o António, irmão do Bruno. Este, ainda tinha as mãos na cabeça.

Uma coisa engraçada que acontece nas escolas situadas em bairros carenciados é termos nas salas famílias inteiras, irmãos, meios irmãos, primos e meios primos tanto da parte da mãe, do pai, como da madrasta e do padrasto. Mas este é um pequeno aparte que não interessa para aqui agora.

Claro! Eu já sabia. O sapo é o “coisa ruim” dos ciganos. Como é que eu não me lembrei?

Sempre vi, desde pequena, nos estabelecimentos comerciais o referido sapo, em barro pintado e envernizado de tamanho XL para as incompatibilidades sociais do dono da casa serem bem visíveis pelos ciganos.

- Então como se diz? – perguntei novamente.
- A gente não diz…
- Desculpa, mas não me lembrei.

O Bruno, o miúdo cigano de sete anos, que me trata sempre tão bem, que amua quando grito com ele, que trabalha o dia inteiro para eu lhe colocar “certinhos” no caderno, percebeu o meu profundo abatimento de ânimo por ter invadido negativamente o campo sagrado dos seus valores, embora sem querer, porque na minha cultura um sapo é um animal que ajuda a manter o ecosistema dos pântanos e, na minha fantasia livresca, um Princípe encantado, e logo me quis animar dizendo:

- Pode dizer professora. – disse ele.
- Não. Não se pode , não se diz. – disse eu.
- Professora! – diz a Jessica, cigana também, com a alegria estampada no rosto de quem tinha descoberto a pólvora – diga rã.

Concordámos todos contentes com a ideia da Jessica, rindo, como diria a Alice vieira, em todas as vogais do alfabeto e continuámos a história.


da Leonoreta

Pedi Papper

O dia da criança nas escolas é dia de passeata. Das diversas actividades para fazer nesse dia, afixadas no placard na sala dos professores, escolhi para a minha turma um pedi papper.

Foi o máximo. Eu adorei. Eles adoraram. Eu adorei porque eles adoraram. Eles adoraram porque eu adorei. Ficámos em primeiro lugar em relação às outras turmas de escolas que também participaram. Trouxemos para a escola um troféu que iremos exibir na exposição de fim de ano.




Visitámos o Complexo 2 dos Olivais. O sítio de onde parte a limpeza da cidade de Lisboa. Tem cerca de mil viaturas, segundo o guia.




Dividimos a nossa turma em dois grupos. Metade ficou comigo. A outra metade com uma auxiliar.




Todos os dias os camiões que fazem a recolha do lixo são lavados com creolina a altas temperaturas. É bom saber destas coisas. As perguntas choviam. Mas o guia tinha muita paciência.




Também visitámos as instalações por dentro. Tem uma oficina de mecânica onde se faz a manutenção das viaturas. E um armazém de pneus que mete medo. Os escritórios estão divididos por gabinetes.


O Bruno e o André

Terminada a visita às instalações saímos do complexo e começámos o pedi papper. Uma catrefada de folhas para responder e de ruas para percorrer esperava por nós. E eu, qual Condestável Nuno Álvares Pereira, influenciado pelas literaturas de Cavalaria de Amadis de Gaula, à frente das suas tropas gritando para os castelhanos, corria mais depressa que alguns dos miudos.




A biblioteca dos Olivais, uma das descobertas. Estávamos no caminho certo.


A Professora

Atravessámos passadeiras, passagens aéreas, estradas, descobrimos ruas, virando à esquerda e à direita, muitos ficaram a saber o que era um coreto e para que servia uma harpa.

- No cimo dessa rua existe uma igreja.
- Já vejo a torre
- Diz o nome dos santos que estão representados em azulejo.

O André estava com o rosto a arder e a franja toda puxada para cima como o Tintim de tanto limpar o suor da testa com a mão.

- Então quais são? Não trouxe os óculos e não vejo os nomes… - disse eu.
- Virgem Maria e Santo António – disse o André.
- Tá maluco????!!!! – eu tinha visto que era São José.
- Enganei-me, enganei-me.





Chegámos mais mortos que vivos. Muitos mandaram-se para cima da relva. O outro grupo juntou-se logo a seguir. Trocámos experiências. “ e aquela parte ali…”

Os troféus eram pequenos robots feitos de peças de automóveis pintados de dourado.

- É ouro professora?
- Mais ou menos.
- eram todos todos iguais… - disse o Bruno desolado.
- Parecidos. O nosso á mais bonito.- disse com a maior convicção do mundo.
- yah! O nosso é mais bonito.



da Leonoreta

Ovais Elípticas



Por vezes, quanto mais complicados são os conteúdos que eu dou na aula mais atentos os miúdos estão à sua explicação. Quando falo nos astros, nos cometas, na via láctea, por exemplo… gera-se um silêncio que até as moscas têm medo de quebrar, pelo que param de voar e prostam-se de chapa na parede mais próxima, confiando na gravidade.

Sempre que posso fujo à entrega da ficha. Por algumas razões.
A ficha é individual, obriga o aluno a projectar-se na solidão infinita da folha de desenhos e letras imponentes a exigirem:


- Lê-me.
- Pinta-me.

Se lhes der uma ficha, dou-lhes a papa feita e mastigada.
Por outro lado, não gosto de desperdiçar papel. Prefiro gastar giz. O dinheiro do estado guardado para a Educação.

Assim, têm de passar os desenhos do quadro para o papel. Ilustrar eles próprios cada peça do puzzle para que, todas passando pela ponta do lápis, todas fiquem nas pontas dos neurónios.

E depois gosto que olhem para mim à medida que eu falo, admirem a minha fraca habilidade para desenhar ovais elípticas perfeitas, planetas de vários tamanhos, rodas tortas a tentarem compor um sistema solar, e no fim digam:

- A professora desenha tão bem!!!!

E, descaradamente, o meu ego cresce à conta de uma coisa tão bela que é a ingenuidade dos meus alunos.

Hoje – digo eu - sabe-se que os planetas giram à volta do sol num movimento de translação, de oeste para leste… mas antigamente, há muitos, muitos anos os homens pensavam diferente - (lembro-me de Ortega Y Gasset “quando ensinares, ensina também a duvidar daquilo que ensinas”) - os homens pensavam que era o sol que girava à volta da terra… mas um homem chamado Galileu Galilei veio mostrar que não era assim…

Falas de Galileu? Falo.

Os meus alunos são pequenos? Sem dúvida que o são.
Mas se ouvem falar do Castelo Branco da Quinta das Celebridades também podem ouvir falar do Galileu. Cabe-me a mim saber como apresentá-lo.

Os meus alunos são pequenos? São. Claro que são.
Mais uma razão para lhes falar de Galileu…só do que inventou…
... pois…o que ele disse, o que ele tentou provar, a revolução que veio provocar na humanidade por mostrar que não estávamos sozinhos no universo e que assim poderíamos não ser os preferidos de Deus, levando Darwin à sua evolução das espécies, Descartes a duvidar de tudo e de mais alguma coisa, sobretudo de si próprio, Kant a colocar toda a responsabilidade de uma acção nele próprio porque Deus deixa de ser o grande bode expiatório do seu comportamento, … terei eu de entender melhor.


da Leonoreta

quinta-feira, dezembro 29, 2005

A Lâmpada de Aladim


Sempre que leio uma história aos meus alunos procuro ter o objecto mágico à mão a fim de exercer maior influência sobre os seus sentidos. A vista do objecto mágico assegura o vai vem entre a ponta da realidade e a ponta do sonho.

Se não tiver o objecto da história em questão, um que faça parte da história, também serve. Uma varinha de condão, um chapéu de bruxa, uma tiara…

Hoje vou contar a história de Aladin e a lâmpada maravilhosa. Entro na sala. Boa tarde meninos. Mal coloco a pasta na cadeira da professora, a invasão do costume com as bisbilhotices do momento e os cadernos abertos na folha do trabalho de casa.

Lá se sentam. Lá se acalmam. Tiro da mala uma lâmpada em casquinha ou coisa parecida e coloco-a em cima da secretária junto de um pano com cornucópias a lembrar as arábias. Ao verem a lâmpada esperam pela novidade.
À força de contar a história tantas vezes já a conto olhos meus nos olhos deles. É outra maneira de cativar a audiência.

Se eu tivesse uma lâmpada cheia de um génio que me fizesse as vontades juro que seria moderada nos meus pedidos. Não faria mais do que um por dia o que me obrigaria a fazer uma lista de prioridades a fim de fazer boas escolhas e ver o que seria mais importante e tal…

Então, o que vocês pediriam se tivessem o génio ao vosso dispor? – pergunto. Uma playstation.- respondem.
Todos querem uma playstation.
- Olhem, digo eu, isso já pediram ao Pai Natal.

Mas o Pai Natal, pelos vistos, ou não encontrou a playstation, ou não sabia o que era, ou simplesmente lançou o pedido ao vento. Agora tentavam o brinquedo com o génio da lâmpada, quem sabe….

De repente, um dedo no ar.
- Diz, diz…
- Professora… como é que o génio come e dorme aí dentro?

Ouço uma campainha na minha cabeça. Vejo-os a saírem desalmadamente pela porta fora. Afinal a campainha é o toque para o intervalo. E eu penso "save by the bell". Contudo, ele voltaria à carga. Mas eu tenho meia hora para pensar na rotina diária do génio no interior da lâmpada.



da Leonoreta

Atrás das Grades


A visita anual ao jardim zoológico é quase obrigatória nas escolas do 1º ciclo. O jardim é um lugar fabuloso para as crianças. É a possibilidade de verem ao vivo e a cores os animais selvagens que vêem nos livros e na televisão que de outra maneira não poderiam ver.
Daí que além de lúdica a visita também é pedagógica e adquire um carácter ritualista: a criança que vai lá pela segunda vez gosta de mostrar aos colegas que nunca lá foram certos passos que já conhecem.

Visitas de estudo com os miúdos de Chelas podem surgir como desmotivantes para os professores na medida em que se eles têm dificuldades em saber estar numa sala de aula mais transtornos darão em espaço aberto fora da escola.
Todavia, a novidade do mundo pouco acessível, para além da rua que os leva de casa à escola e da escola a casa, coloca-os em estado de êxtase. Em fila de dois a dois caminham, olhando para todos os lados para não perderem pitada. È a saída da Caverna que Platão descreve na sua Alegoria. Dilatam-se os horizontes.

Vemos os Leões marinhos. Deliramos com os golfinhos. Gostamos tanto deles que queremos trazer um para a sala de aula. na impossibilidade desenhamo-lo, deixa lá. Depois a visita continua. Elefantes, leões rinocerontes. E os tigres… e os chimpanzés… nas jaulas. Exíguos, diminutos, escassos compartimentos de azulejo branco, rachado e debotado pelo tempo. No meio da gaiola um tronco ou um pneu, conforme as necessidades do animal a fim de lhes dar um cheirinho a selva.

Não é preciso chamar a atenção dos miúdos com palavras para as condições do cárcere. Percebem-nas no meu silêncio e no meu olhar de rejeição. E os miúdos de Chelas, famosos pela sua violência verbal e física, estigmatizados por serem de Chelas, condoem-se com os bichos atrás das grades.

No dia seguinte, desenham o animal que mais gostaram de ver. Assomam-se nas folhas brancas golfinhos, girafas, e aquele chimpanzé triste, apertado no meio de paredes, que a professora fotografou.


da Leonoreta

Escolaridade Obrigatória




É difícil para um professor desligar-se da escola quando toca para a saída. Já tentei arrumá-la na gaveta depois do horário lectivo mas não consigo. Trago-a para casa, para a casa dos meus amigos e quando menos conto lá estou a falar dos meus alunos.


A escola é o caderno com as pontas viradas para cima, é o pó de giz nos dedos, a corrida constante de grupinhos para afiar o lápis, a borracha perdida no chão a querer marchar porta fora para o recreio… é o convívio na sala de professores, os colegas novos que chegam naquele ano e depois partem para outras paragens e nunca mais são vistos, são os conselhos escolares feitos todos os meses, as actas de várias páginas sobre as avaliações... é a relação de amizade entre professor e aluno estabelecida pela partilha de cinco horas cinco dias por semana… a apreensão de diferentes temperamentos, tanto do lado que ensina como do lado que aprende.

Todavia, a escola não é um mar de rosas de pétalas aveludadas e odor inebriante. É também a incompatibilidade do professor com alguns alunos emocionalmente instáveis, tão instáveis que nunca sabemos a sua reacção no momento seguinte.

Sou professora do 1º ciclo numa escola situada numa zona estigmatizada pelo nome e pela paisagem árida de recursos económicos e de afectos, rodeada de caixotes habitacionais de cores desmaiadas manchadas pelo bolor que enegrecem a alma de quem lá mora e de quem lá passa.

A minha turma é constituída por alunos cujas idades vão dos quinze aos sete anos de idade. Os mais velhos têm dificuldades de aprendizagem graves e estão há vários anos no 2º ano. Os mais novos entraram para a escola o ano passado. Controlar o fascínio dos pequenos pela falta de regras dos colegas repetentes de modo a não repeti-las é um exercício de estratégia tendo em vista a utilização adequada dos meios de coacção psicológica traduzida quase sempre no grande murro em cima da secretária. O barulho inesperado assusta-lhes os insultos que proferem uns aos outros, ficando entupidos nos ouvidos e nas gargantas. Só a minha mão chia por várias horas.

Não sou uma professora exemplar na acepção que os sucessivos ministérios da educação querem que eu adopte. Fui formada nas pedagogias e não nas psicologias. Eu passo o saber académico do aeiou e o saber empírico do meu ser e estar no mundo. Não consigo realizar-me no meu trabalho se passo o dia na sala de aula a conter comportamentos desviantes.

O governo de José Sócrates pretende alargar a escolaridade obrigatória para os dezoito anos de idade. Isso quer dizer que vamos ter na mesma sala miúdos no seu projecto adolescente de hormonas desequilibradas juntamente com miúdos em idade infantil?

Termino abruptamente com a pergunta que espero não ser retórica. Sem mais assunto, assumo a minha incompetência de lidar com tal situação para a qual não me sinto minimamente vocacionada.

Leonor

Quando eu for grande


Logo no primeiro dia de aulas pergunto aos miúdos sobre a sua identidade, sobre a composição da sua família e, o mais importante, o que querem ser quando forem grandes. O que é uma forma de questioná-los sobre as grandes incógnitas da nossa existência, quem sou eu, de onde vim e para onde vou, numa forma menos filosófica.

Certo dia, conheci um miúdo com uma capacidade oratória, um saber estar e um saber ser fabulosos. Não resisti e perguntei-lhe: o que queres ser quando fores grande?
Não se precipitou na resposta. Por fim respondeu: quando for grande quero praticar o bem.

Estremeci. Fui apanhada nas redes de uma argumentação Kantiana.
E o que é o bem? ( já agora…. queria saber qual era a sua ideia).
O Bem é a justiça, respondeu, algo confuso por eu querer saber uma coisa tão óbvia.

Claro! Como é que eu ainda não sabia uma coisa daquelas? A conversa terminou por ali. O seu enfado era mais que evidente. Comigo, a conversa não passaria do “chove mas não molha”.

Entretanto, ano e mais ano, ele mudou-se com a família para outras paragens, curtas no espaço mas longe das minhas trajectórias, e deixei de o ver. Anos mais tarde encontrei a avó. E perguntei: O seu neto?
O meu neto é juiz, respondeu a senhora.
Lembrei-me "Quando for grande quero praticar o bem".


da Leonoreta

Cigarras e Formigas


Todos nós conhecemos a fábula da Cigarra e da Formiga.
A cigarra é um insecto nocivo à agricultura e produtor de sons estridentes, na opinião de muitos mas não na minha, que me delicia ouvir aquele cri cri, principalmente ao fim de tarde, começo de noite morninha. A formiga é um insecto de curiosos instintos sociais, pertencente a um grande número de espécies, algumas das quais nocivas também.

Seja como for, se estes insectos são nocivos ou não, o planeta lá sabe e, na devida altura, se isso for necessário, saberá dar-lhes o desbaste. Não é isso que está agora em causa.

A fábula diz-nos – eu já sei que vocês sabem, mas deixem-me lá escrever um bocadinho que eu gosto – que a formiguinha, coitadinha, trabalhou o Verão todo para ter de comer no Inverno. Nada de cinemas, praias, e outros lazeres afins. Foi só o dever, o dever, o dever…
A cigarra, pelo contrário, trabalhar está quieto, porque que tinha de pôr as cantorias em dia. Afinar a voz e a viola dá trabalho. Escolher as músicas e as letras também. Não pensem que ser artista é só prazer, prazer, prazer…
Quando o Inverno se aproxima a cigarra não tem o que comer e lembra-se da formiga que como trabalhou tanto deve ter a despensa recheada de miolo de pão. A formiga, decisiva, terminante, peremptória, diz: NÃO.

Conto esta fábula, não propriamente na Hora do Conto, mas, particularmente, na Hora da Formação Cívica exigida pelo programa educativo do 1º ciclo, se bem que formação cívica dou eu a toda a hora sem precisar de a mencionar na planificação da aula.

Pergunto aos alunos o que fariam no lugar da formiga. Negavam a comida à cigarra? Pensem que em vez da cigarra é um amigo vosso…
- Ajudávamos.
- Yah!

Pergunto aos alunos se a atitude da cigarra é justa. Não se prevenir para os momentos de aflição, contando com o auxílio dos outros…
- Olhaaaaaa!
- Trabalhasse!

A turma nunca se dividiu em facções nas respostas. Os mesmos que eram contra a formiga também eram a favor dela. Assim como tinham pena da cigarra e, ao mesmo tempo, vontade lhe dar uma tareia.

Ah! La Fontaine, do que te foste lembrar…
- Vamos dar uma oportunidade à cigarra? – pergunto.
- Simmmmmmmmmmmm.
- E se ela voltar a falhar?
- (…)!!!!!!!!!!!???????????

Moral da história:
Que moral? Não consigo falar em moral.! Cada qual tem a sua moral.
Lançei o barro à parede. O resto é com eles.


A Cigarra e a Formiga (de João de Barros)


Cantiga das Formigas

1,2,3 sacos de farinha
4,5,6 sacos de feijão
Trabalhando, Dona Formiguinha
Vai enchendo aos poucos seu porão


Cantiga da Cigarra

Sou feliz,
Cigarra cantadeira
Canto a vida,
canto a luz
Pois quem canta,
canta a vida inteira
Torna os sonhos mais azuis
De que vale um tesouro
Junto às flores do arrebol?
Quem quiser que junte todo o ouro
Eu prefiro a luz do sol



"Eu acho que tem razão,
Minha Cigarra querida.
Vivo juntando mil coisas
E desperdiçando a vida.
Quem trabalha como nós
Dia e noite, noite e dia
Precisa de vez em quando
De quem lhe traga alegria! " - dizem as formigas, hoje em dia.

Cartas de Amor


Desenho feito por um dos meus alunos.
Desta vez não o trabalhei no paint para lhe dar mais cor.
Decidi respeitar o original




Na escola primária, a partir do 2º ano, já circulam pelos alunos os bilhetinhos de amor. Quando vejo algum a atravessar a sala de lés a lés, passando de mão em mão – os cúmplices – tento apanhá-lo, muito sorrateiramente.

Há-os lindos, desde os mais perifrásticos até aos de pergunta americana com um quadradinho à frente para colocar uma cruz a dizer sim ou não à inevitável pergunta: queres namorar comigo?

Levo o bilhete para a sala de professores. mostro-o a todas as colegas. Rimos, gracejamos numa festa ruidosa e alegre, aprovando satisfeitas: os afectos funcionam.

Apago os nomes do bilhete para não comprometer ninguém. Fotocopio-o e entrego-o a todos os alunos da sala. Riem. À excepção do remetente e do destinatário que reconhecem o manuscrito mas que depressa percebem a minha discrição selada num segredo.

Lemos o texto. Corrigimos a ortografia. E já agora vemos qual a melhor pontuação a ser usada a fim de despoletar melhor as emoções. Decoramos a folha com cupidos de sorriso matreiro armados de arco e flecha e corações trespassados por setas a pingar gotas de sangue vermelho vivo de amores sofridos.

Trabalho a língua portuguesa e a expressão plástica a partir de experiências vivenciais dos alunos. Fico com a sensação de ter cumprido o meu dever.
Estimulo a expressão de sentimentos que não devem ficar envergonhados em futuros adultos. Fico com a sensação de ter cumprido o meu prazer.

Confesso a minha maldade.

da Leonoreta




Todas as Cartas de Amor são Ridículas


Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)


de Álvaro de Campos

O Maravilhoso nos Contos de Fadas


Os contos de fadas existem na cabeça dos homens desde sempre. Primeiro de expressão oral e, posteriormente, de expressão escrita, eles são necessários para apaziguarem a insatisfação do ser humano perante uma existência medíocre de afectos.

Quando os leio aos meus alunos na Hora do Conto, exagero no Maravilhoso para que desenvolvam o gosto pela fantasia que um dia lhes dará asas para colorir dias cinzentos.

A Bela e o Monstro é o meu conto de fadas preferido. Nesta historieta o príncipe vive num castelo encantado vítima de um sortilégio que o transformou num monstro horrível e só o amor de uma jovem pode quebrar o feitiço.

Por um acaso do destino, a Bela, criatura linda de virtudes, é forçada a um convívio diário com o Monstro, tolerando o seu mau feitio da melhor maneira que sabe e que pode. Inexplicavelmente, a simpatia e a dedicação entre os dois nasce de modo ténue e vai crescendo à medida que passamos as páginas.

A Bela é libertada do seu cativeiro e volta à sua vida, deixando-nos numa angústia solidária com o Monstro. Mas, por um acaso do destino, e ouvindo os nossos gritos deste lado do Era uma vez (Volta, Bela, volta) a Bela retorna ao palácio.

Silêncio. Olhos e bocas abertas. Tempo para voltar do lado de lá.

- “Que bonito, professora. Conte outra vez.”

A Hora do Conto acabou. Temos de trabalhar as adições com transporte. Eles olham para mim. Aguardam. Eu olho para eles. Hesito.

Oh! Quero lá saber. E leio a história outra vez.
da Leonoreta

Tremores de Terra


Vai haver no próximo sábado, dia 5 de Março, uma simulação de um sismo no parque da Bela Vista, em Lisboa, lá no sítio onde se fazem os concertos musicais do Rock In Rio, a fim de ensinar à população em idade escolar como agir em tais casos.

Nada melhor que experimentar na pele o fenómeno, ainda que suposto, e ainda bem que fingido, para ter a noção da utilidade do concreto em detrimento da só teoria.

Mas amanhã, se Deus quiser, não será a véspera desse dia, como diziam os gauleses de Uderzo e Gosciny.

A dona Eulália, auxiliar de muitos anos da escola entrou na sala, avisando do evento.
Logo à partida a turma mostrou-se desinteressada. Não que tivesse alguma coisa de importante para fazer nesse dia mas… sei lá… não vou… não quero.

Os anos de serviço da dona Eulália naquela escola de Chelas fê-la reforçar o aviso (parece que é muito importante angariar participantes para o evento porque senão não valerá a pena fazer tremer o solo só para um gato pingado).

- Vai ser distribuído um lanche. – disse a senhora.

E logo de imediato, a vontade daqueles miúdos, essa firmeza na decisão e constância na execução, girou cento e oitenta graus.

Onde é que é isso? A que horas? Quando? - as vozes atropelavam-se.

E, perante aquele episódio, ali estava eu, na border line, entre a razão e o que a ela é contrário, a tentar perceber certas facetas do meu mundo.


da Leonoreta

Adamastor


Hoje estive a arrumar papéis.
E, no meio da papelada, deparei-me com um desenho sobre o Adamastor feito por um dos meus alunos. Um rochedo, altíssimo com dois olhos ferozes e uma boca escancarada. Na sua base, na crista das ondas, um botinho, pretensiosa caravela, reconhecível apenas pela cruz desenhada nas velas.Na altura dei-lhe um Muito Bom. Preguei-o com alfinetes na cortiça da sala. No fim do ano guardei-o para mim. Hoje, ter-lhe-ia dado um Excelente.
Na minha modesta opinião, Adamastor é dos episódios mais bonitos dos Lusíadas, superando o de Pedro e Inês. Adamastor, metamorfoseado de rocha, lembra-me o ser humano que quando traído ou abandonado pelo ser que ama, se rebela contra o mundo, se fecha em si mesmo a maior parte do tempo e, quando se mostra, mostra-se combativo.

No seu corpo enorme, com a sua voz poderosa, ele brame, berra, grita, ruge, ameaça de morte todos que ousam desafiá-lo… Vasco da Gama, suponho que a tremer por todos os lados, aguenta-se muito bem e pergunta-lhe: “Quem és tu? Que esse estupendo corpo, certo me tem maravilhado?”Adamastor ouve e vacila… cede… dobra-se… e desabafa a sua dor. O seu amor por Tétis não tinha sido correspondido.

O poder das palavras ... de Camões... nas suas hipérboles e hipérbatos.


da Leonoreta

Explicando

Este é um blog sobre a escola, edíficio de partilha de saberes e troca de vivências afectivas diárias.

Nele conto momentos que passo com os meus alunos ao longo do meu percurso como professora de 1º ciclo nas várias escolas por onde passo.

Inicio-o quando o primeiro espaço de tertúlia (Ex Improviso) está quase a fazer um ano. Daí que alguns textos já publicados apareçam aqui de rajada. Os outros, que ainda não foram escritos, surgirão ao ritmo do "Trabalho e os dias".


da Leonoreta