Tentamos as vezes que forem precisas.
- Professora, posso desenhar a aranha? – perguntou de manhã o Luís Carlos nos seus precoces e muito decididos seis anos.
- Desenha! E até podes colocar uma mosca morta pendurada num fio se quiseres.
Ainda estou no intervalo do meu almoço mas a última meia hora dedico-a a arrumar os papéis para prosseguir a parte da tarde. Procuro o ofício que informará o agrupamento da visita de estudo que a escola efectuará na semana seguinte.
Num instante toca para entrada e no último minuto encontro o bendito papel. Os miúdos são pontuais. Geralmente fazem fila à porta esperando a minha ordem para entrar. Porém, desta vez, a Natércia rompe pela porta esbaforida em direcção à minha secretária. De faces vermelhas a arderem de ansiedade conseguiu dizer por entre a respiração ofegante.
- PROFESSORA!!!. O Tony mandou um chuto e a bola foi parar lá a cima à árvore e ficou lá presa e o Bruno quis tirar de lá a bola e mandou um chuto na dele e ficou lá também.
A Modesta, em silêncio, entrega-me um napron de papel feito por ela, dividindo a minha atenção entre ela e a colega.
- O quêeeeeee? - disse eu tentando imitar a pronúncia do norte, lendo simultaneamente a dedicatória que a Modesta escreveu para mim a um canto do napron. “para a profeçora…”. Costumo mandar escrever os erros ortográficos vinte vezes cada um, mas desta vez não me atrevo. Deixo a oportunidade para a semana seguinte.
- Bom! Explica lá melhor. Mas com calma. Com calma. – disse eu.
Ela explicou mais uma vez. Ok, rapaziada. No fim da aula vamos lá tirar as bolas.
Quando faltavam dez minutos para acabar a aula, peguei em dois dos rapazes. Passei pela despensa e peguei numa esfregona. Andámos na direcção da suposta árvore.
- Professora, as bolas estão ali. – e o Martinho apontou para o alto.
A árvore era enorme. De ramos completamente despidos pelo Inverno segurava magestosamente duas bolas muito perto uma da outra como se fossem dois ninhos… ou dois ovos.
Fiquei a medir a altura da árvore com os olhos. Senti-me ridícula com a esfregona na mão. Desejei uma rabanada de vento, à boa maneira de Mary Poppins, mas nada. Nem um ventinho soprava.
- Pois é, rapazes. Quis ajudar mas não consigo. Estão muito altas.
No dia seguinte logo pela manhã os miúdos entram triunfantes, dizendo-me que já conseguiram tirar as bolas.
- Como é que conseguiram? – perguntei curiosa.
- Com a bola do Carlos do 4º ano.





















