sábado, janeiro 21, 2006

Os versos têm segredos


Olho para a minha planificação mensal. Entre os vários conteúdos para dar neste mês constam as rimas. Pego no meu dossier de lombada larga, cheio de textos arrumados por temas, religiosamente bem conservado e aumentado ao longo dos anos da minha docência e, que este ano, em vez de ir ao meu ombro, no saco azul habitual a espreitar o céu lisboeta, foi num cesto para roupa engomada de plástico amarelo às escuras de um porta bagagens parar ao Minho.

Não que ache os manuais desprovidos de senso. Organizados segundo o programa educativo ajudam-me a segui-lo sem me perder. Mas como não existe o manual perfeito, e entenda-se aqui o conceito de perfeição como a minha sabedora aprovação, faço eu o meu manual. Todos os professores têm um só deles.

Acabados de chegar à sala, os miúdos falam enquanto tiram cadernos e estojos das mochilas. Vão-se acalmando à medida que vão passando para o caderno a data e o plano de aula. O plano dá-lhes uma perspectiva do que farão naquele dia pelo que terão de organizar o seu ritmo em função da tarefa a cumprir. Os mais curiosos querem saber o significado dos conteúdos antes do tempo.

- Professora, o que são rimas?

Ainda estou de costas para eles a escrever as últimas palavras no quadro mas reconheço a voz do André.

Faço que não ouço. Não é por ai que quero começar. No fim, saberão o que são rimas e eu não precisei de explanar a teoria. Farão o link sozinhos da prática à representação racional.

De pé, encostada ao quadro, de frente para os alunos, leio o texto de Carlos Pinhão.

“Gil estava apaixonado pela sua colega Matilde. Fazia-lhe versos em que paixão rima com coração e amor rima com flor e às vezes com dor porque o Gil pensava que a Matilde não gostava dele.”

Riem e olham uns para os outros, camuflando algo que fazem há já algum tempo: versos que falam de paixonetas. Só que não rimavam e os do Gil são mais engraçados porque rimam e a rima é como se fosse uma espécie de música que damos às frases.

- Ok. Vamos lá imaginar como seriam os versos do Gil para a Matilde.

Todos estão numa agitação latente da imaginação. O entusiasmo estala. Vou lá para trás, reduzindo ao máximo a minha presença. Gritam-se versos. Repetem-se versos. Escrevo o que dizem, e de vez em quando, intrometo-me:

- Não, não, a palavra final desse verso tem de rimar com a palavra final do verso de cima. Arranjem outra.

Os versos ficam feitos. Os versos ilustram-se. E todos sabem que rimas são palavras que têm na sua terminação a mesma conformidade de sons.
Para concluir lanço para o ar que os versos têm segredos. que às vezes rimam mas outras vezes não, mas que são sempre poesia. (como os de Alberto Caeiro que nunca rimam mas que comportam em cada palavra ha um segredo)


(Será que ouviram?)


da Leonor

sábado, janeiro 07, 2006

Quero Contar uma Coisa


A corrida à casa de banho começa a meio da manhã, indo até ao toque da saída, a meio da tarde. Existe um círculo de cartolina verde de um lado e vermelho do outro junto à porta que controla as saídas da sala, pois determinámos que só seria permitido lá fora um aluno de cada vez. E embora os miúdos já saibam que eu deixo sempre ir à casa de banho vêm sempre pedir-me autorização.

Jéssica, durante a realização de uma cópia, levanta-se e aproxima-se de mim que, sentada na minha secretária, dava uma vista de olhos na apresentação de alguns cadernos já terminados, sob o olhar angustiante dos donos aos movimentos da minha esferográfica vermelha.

A escassa meia hora de terminar a aula, com tantos pedidos já feitos com as respectivas autorizações já dadas, nem deixo a Jéssica falar e respondo : vai num pé e volta no outro.

Porém, o assunto era outro. Jéssica manteve-se de pé na minha frente. Olhei para ela. repeti: podes ir.

- Professora… quero contar uma coisa. - disse a Jéssica baixinho, tímida como só ela é.

A curiosidade já me tinha franzido a testa. A experiência induziu-me a esperar uma queixa muito subtil de algum colega.

- Professora… a minha vaca ontem teve um tourinho.

Nunca adivinharia o que ela tinha para me dizer. Quando recuperei do pasmo consegui dizer:

- Que lindo Jéssica. Conta como foi.

E os papéis inverteram-se. Daquela vez foi a professora que, encantada pela magia de uma história que não era de fadas, ouviu a aluna.


da Leonor

É Preciso Acreditar



Na escola, cada mês do ano marca sempre um evento. Novembro é o mês do Magusto. Em Março começa a Primavera e é o mês da árvore e do Pai. Maio é o mês da Mãe. Em Julho acabam as aulas. E por ai fora. E assim, os miúdos vão tomando conta dos dias, dos meses e dos anos.

Dezembro chegou e com ele os últimos dias do primeiro período escolar. É tempo de falar da tradição do Pinheirinho, do nascimento de Jesus, da figura do Pai Natal.

Adepta ferrenha da ardósia e do giz desenho no quadro um rectângulo com os lados paralelos mais longos na vertical, presumível exemplo de uma folha A4 “em pé”.

- Hoje vamos aprender como se escreve uma carta. – digo eu, tentando preservar um costume que se perdeu com a era dos emails. – e vamos escrever a quem? Mais tarde, quando já souberem como se faz, irão trazer o envelope e o selo e mandar cartas uns aos outros. Mas agora precisamos de alguém. Pode ser o Pai Natal.

- Mas, professora, o Pai Natal não existe.

Desde que ensino, que ouço sempre a mesma coisa em todas as turmas, do primeiro ao quarto ano. A expressão não é nova para mim. Contudo fico sempre terrificada quando a ouço. Aproveito a deixa e ponho uma cara de profundo espanto, começando a narrar uma história de improviso, sem livro na mão, sem que eles percebam, para já, que vamos dar o salto para a ficção.

- Não existe!!?? – pergunto eu.

-Não! – respondem eles.

- Então como é que os presentes aparecem na chaminé?

- São os pais que compram e os metem lá.

- OK! Mas como é que aparecem na minha chaminé? Não são os meus pais que os metem lá.

Os miúdos não respondem. Alguns ainda tentam a contra argumentação mas ficam-se pela boca aberta presa na palavra. Que indecência professora, aproveitar-se assim da inocência dos seus alunos. Decido descansá-los e contar-lhes realmente como as coisas são para acabar de vez com alguns equívocos.

- Vocês têm razão. São os pais que colocam os brinquedos na chaminé ou na sala junto do Pinheirinho. Por uma razão muito simples. O Pai Natal é só um. Ele leva o ano todo a trabalhar juntamente com os duendes, aqueles homenzinhos pequeninos vestidos de verde, a fabricarem brinquedos para todos os miúdos do mundo. Mas apesar da ajuda dos duendes e de ele poder voar no céu com o trenó a uma velocidade espantosa, ele é só um e não consegue fazer tudo sozinho. É então que ele pede a ajuda dos pais porque só uma noite não chega para ele entrar em todas as chaminés.

Alguns, os mais crédulos, vacilam na fantasia do meu conto. Outros, os menos crédulos, deixam-me acreditar que acreditaram.

Seja como for, nas cartas ao Pai Natal surgem frases finais como esta: “Pai Natal, deixa os brinquedos à porta da rua "caminha" chaminé é muito fininha e depois não cabes.”


da Leonor


Publicado em 17 de Dezembro de 2005 no blog Ex Improviso http://leonoretta.blogspot.com

As Sombras da Caverna




Um dia a Colibri mandou-me esta imagem.

(Obrigado Colibri)



A “Alegoria da Caverna” foi um dos primeiros textos que eu li nas aulas de filosofia do antigo 7º ano do então chamado Curso Geral, que hoje corresponde ao 11º ano. Na altura já achei o texto fascinante mas confesso que, devido à minha pouca experiência de vida, logicamente, não o entendi como o entendo agora. De qualquer modo, ficou o gosto por querer saber mais e, sobretudo, querer sempre respostas para as minhas questões.

A Caverna de Platão constitui uma das mais encantadoras metáforas da cultura ocidental sobre a educação. Os prisioneiros da Caverna retratam a condição humana face ao conhecimento, isto é, segundo Platão o homem nasce escravo da sua ignorância e, se não tiver ninguém que o ajude, não toma consciência dela.

Nesse estado de escravatura, as pessoas têm uma forma limitada de olhar o mundo. Apesar disso, pensam que o compreendem. A maioria, sente-se tão confortável no seu estado de ignorância que se recusa a mudar.

À medida que os prisioneiros da Caverna são levados a ver o mundo fora dela vão percebendo a existência da “luz”. Libertados, ficam confusos com tanta “claridade”. Querendo regressar à sua condição anterior, já não podem porque se tornaram conscientes do mundo circundante.

Para Platão, educar é liberdade porque a educação liberta-nos da ignorância. Educar é a arte de motivar para aprender. É dar os meios, estar presente no percurso para que a pessoa possa encontrar o caminho. É um processo lento que expõe a pessoa à verdade.

Perante tudo o que foi dito, e aproveitando a deixa para concluir, podemos perguntar então, o que se entende por educação em Portugal, quando os sucessivos Ministérios que cuidam dela, apresentam tão fracas condições para que o ensino/aprendizagem se cumpra.

Ou, não estarão os nossos governos interessados em libertar prisioneiros da sua Caverna, em formar pessoas conscientes do seu mundo?

De facto, escravos da nossa ignorância, tornamo-nos súbditos de meia dúzia “iluminados”.
Nesse caso, está tudo bem e perdoem-me, as inteligentia, se um dia tive o azar de me encandear com a luz de Platão e agora querer respostas a que não tenho direito.


da Leonor


Publicado em 19 de Novembro de 2005 no blog Ex Improviso http://leonoretta.blogspot.com

Tenho Cinco Pintainhos



Tenho uma turma de 23 alunos. 18 do 3º ano e 5 do 1º prontinhos a começar. Uns fizeram seis anos há poucos meses. Outros irão fazê-los agora em Dezembro. São cinco pintainhos. Uns esfarrapam-se a trabalhar. Outros esfarrapam-se a brincar.

Não é a primeira vez que tenho vários níveis na turma. Mas é a primeira vez que tenho o 1º ano assim tão pequeno a iniciar a aventura das letras.

Entre a correria do 3º ano que me diz constantemente “já fiz” e um 1º ano que agarra a minha camisola perguntando a cada letra que desenha no caderno “é assim?”, por vezes abstraio-me só num deles, esquecendo o outro completamente.

E foi num desses esquecimentos que eu não vi a Márcia a pintar as unhas.

A Márcia é um dos cinco pintainhos que se esfarrapa a trabalhar, juntamente com o Luís. Bem juntos à minha secretária ouço-lhes as conversas em surdina. Falam do campo, da catequese, do senhor padre, da mãe, dos patinhos que nasceram. Muito conscientes do seu dever trabalham enquanto conversam.

O Luís, uma vez por outra leva uma bola vermelha no caderno. A última foi por ter andado a correr atrás da Catarina, linda de morrer, juntamente com os colegas mais velhos da turma para lhe dar beijinhos na boca, segundo as queixas das meninas. Muito honestamente, levantou o braço quando perguntei pelos nomes dos perseguidores.

- Não acha que ainda é muito pequeno para olhar para a Catarina? – perguntei com um ar muito sério, treinado para impor respeito. Ninguém desconfia que me estou a rir.

- Não volto a fazer. - disse ele, de expressão solene.

Mas a Márcia tem levado sempre bola verde. Nem uma amarela consta do seu cadastro. Alertada por um dos rapazes mais crescidos, acordei para me dividir novamente entre duas classes. Tirei das mãos da menina o frasco do verniz e guardei-o na gaveta da minha secretária. Gritei-lhe uma bola vermelha e nada de intervalo no dia a seguir.

Retornei às leituras do 3º ano. Encostada ao meio do quadro vigiava, defraudada, os mais pequenos. A Márcia parou de trabalhar. De cabeça apoiada numa mão, triste, de pensamento lá longe, quebrava uma das regras da sala de aula: riscava a mesa com o lápis.

O Luís, muito carinhoso, consolava a amiga que partilhava com ele desabafos telúricos. “Oh Márcia, eu já lebei um bermeilho, bô pedir à professora para amanhã ficar aqui no interbalo contigo”. A Márcia continuava a riscar a mesa, aumentando os riscos à medida da sua tristeza.

Dirigi-me à minha secretária e de lá chamei a Márcia para conversar sobre a bola vermelha. Ao meu apelo, escondeu os olhos nas mãos em concha, começando um choro compulsivo.

Entre lágrimas espessas, baba e ranho, contou que não podia levar bola vermelha porque senão não ia ao casamento.
- Qual casamento?
- … o casamento de uma mulher, balbuciou no meio de um milhar, duas centenas e sete soluços.

Ai a minha vida. O que é que eu faço agora? Se eu tiro a bola… mas se eu não a tiro…

- Vamos tirar a bola do caderno. Mas o castigo mantém-se. - disse eu.

Ela tinha feito uma grande bola vermelha no topo do caderno. “safando” não saia. De modo que tive de cortar o bocado de papel com a tesoura. Ao lado do papel cortado ficou uma verde, esfarelada de água salgada.

Já quase no fim da aula, mandei arrumar o 1º ano enquanto o 3º acabava a cópia. E à espera do toque fui conversando com os pintainhos. A Márcia já ria e contava-me dos campos que tinha, das estufas de cebolas e de alfaces. Aquela gente cultivava os legumes que eu compro embalados no supermercado e que eu penso que nascem nas prateleiras.

- Professora, tenho um espantalho. Tem uns olhos assim. – fez uma argola com o indicador e o polegar e colocou nos olhos dela.

Não contive as gargalhadas de contentamento por alguém me dizer que tinha um espantalho. Não um bonequinho de pelúcia, ou um bibelot de barro, mas um espantalho “de carne e osso”.

No dia seguinte, peguei n' O Feiticeiro de Oz. Vamos lá dar vida a esse espantalho.


da Leonor


Publicado em 9 de Novembro de 2005 no blog Ex Improviso http://leonoretta.blogspot.com

Embaladas pelo Vento





Reflexos de Outono (de Washington Maguetas)

As regras são necessárias ao andamento da vida. Mas se por um lado são necessárias por outro são aborrecidas quando instaladas na rotina. Ainda bem que toda a regra tem excepção. Para fugir à tal rotina de vez em quando.

Não gosto de ensinar gramática. Digo… a regra explícita: isto é assim porque é assim. Deste modo, dispenso a maçada de leccionar o tratado das leis que regem a língua materna, partindo sempre de frases feitas pelos miúdos para tornar a tarefa mais atraente tanto para mim como para eles.

Depois de termos falado das folhas acastanhadas, avermelhadas, amareladas e encarquilhadas que emprestam cores mornas e sons crocantes aos chãos de Outono e deixam as árvores despidas à espera do vestido bordado de mil flores em fundo de tons esverdeados que a Primavera (a nossa prima preferida) há-de trazer depois do Inverno ataco com os verbos da primeira conjugação.

- Muito bem! Hoje estou sem imaginação e preciso de uma frase com o verbo dançar.

Podia ter pedido um verbo qualquer: andar… saltar… mas saiu dançar.

Os miúdos gostam de fazer corridas nas tarefas. E assim, pouco depois a Natércia diz “já fiz”, esperando um muito bem da professora que não aprecia e não promove este tipo de competição.

- Ai já?! Então vai lá ao quadro escrever a tua frase. - disse eu.

E a Natércia escreveu assim uma das frases mais bonitas que jamais li sobre uma dança e um sono de folhas outonais.


“No Outono as folhas ficam velhas e o vento de Outono sopra e as folhas caem embaladas pela dança e quando caem no chão dormem um profundo sono.”



da Leonor

Publicado em 23 de Outubro de 2005 no blog Ex Improviso

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Trabalhos de Casa

Abro a porta da rua e sou apanhada pelo nevoeiro. Estamos em meados de Outubro mas aqui no Minho o nevoeiro é frequente logo pela manhã.

Aponto o comando para o meu Fiat Uno velho de tinta a cair aos bocados. Apesar do seu aspecto zombi cumpre a sua função, levando-me fielmente de casa para o trabalho e fazendo depois o percurso inverso.

Entro no carro. Dou à ignição. Acendo as luzes. Já na auto estrada atento às setas que me indicam a cidade do Porto. A determinada altura viro para Esposende. Passo a ponte velha de Fão. A trepidação provocada pelas suas frequentes lombas desmancha-me sempre a posição do retrovisor.

Antes do cemitério pleno de jazigos austeros viro para uma estrada única com casas de um lado e do outro, caixas de fósforos quase sempre de uma porta e duas janelas. Reduzo o andamento para não chocar com nenhuma bicicleta ou motoreta que surge repentina de caminhos paralelos. Ultrapasso o tractor do José Manuel. É a mãe que o transporta todos os dias de manhã para a escola indo de seguida para o campo.

Chego à escola. O cheiro a estrume dos campos cultivados invade o ar. Vejo o Marco António na sua bicicleta , carregando sempre um pendura com ele. Cabeça no ar. Bom coração. Conquistas os teus amigos com as boleias. Apesar dos valentes castigos traduzidos em tabuadas a multiplicar pelo número de vezes da minha vontade caprichosa de professora pode tudo, dizes-me sempre “bom dia professôara” com o melhor sorriso do mundo. Sua cabeça de vento. Fizeste o trabalho? Fiz sim, professôara.

Tenho andado sempre pelos bairros economica e socialmente carenciados de Lisboa. Pretos e ciganos na sua maioria. È a segunda vez que tenho uma turma só de miúdos brancos, de primeiro e de terceiro anos limpos sem osso, sem repetências.

Pelas nove horas em ponto os miúdos formam fila à porta da sala, esperando a minha ordem para entrar. E começa o dia: chamada, data no quadro, abrir cadernos para ver quem fez o dever de casa.

Passo nas primeiras mesas. Marco vistos a vermelho, contrariando as psicologias de alguns pedagogos que dizem que a referida cor desmotiva a aprendizagem dos petizes, traumatizando-os para toda a vida. Chego à vez da miuda de tranças que herdou o nome da avó materna: Modesta

- Professôara… num fiz os debiêres, doía-me a barriga.
- E agora dói-te?
- Nãoe. Já passoue.
- Então fazes no intervalo.

Modesta e os outros espantam-se pela ineficácia da desculpa, percebendo que rapidamente terão de arranjar outras. Filipe também não fez os trabalhos.

- Porque não fizeste?
- Fui ajudar a minha ábó a cortar milho para as bacas. Num consegui fazer. - A terminação “er” enche-lhe a cavidade bucal.

Fico num dilema. Privar a Modesta do intervalo pela desculpa esfarrapada e não privar o Filipe pela ajuda prestada… bom! Penso com os meus botões, por hoje o castigo mantém-se, é a minha malvada dignidade que está em jogo, amanhã não usarei o intervalo como punição se tiver de punir.

Tenho andado sempre por Lisboa, em bairros carenciados económica e socialmente, de brancos, pretos e ciganos, que não gostam e nem entendem a escola, que se desculpam com dores de barriga para fugirem aos deveres escolares. Mas o Filipe, a Jéssica, e outras tantas crianças da minha classe de oito anos de idade já conhecem a responsabilidade de ajudar a família no campo para garantir o sustento do clã.
Muitas delas não irão longe nos estudos por falta de incentivo dos parentes para quem escrever o nome e fazer contas com "e vai um" é quanto basta para não se enganar nos trocos da mercearia. Não obstante, quando chegarem à idade de dezasseis anos já conhecem o mundo do trabalho, enquanto que os meninos de Lisboa conhecem o roubo.

Fiquei envergonhada.

da Leonor


Publicado em 15 de Outubro de 2005 no blog Ex Improviso http://leonoretta.blogspot.com

Estigma



Foto de Luc Selen

Nos momentos de expressão plástica, a sala de aula transforma-se na Feira da Ladra. Incapazes de ficarem sentados nos seus lugares a pintarem os seus desenhos, os miudos levantam-se amiúde, trocando lápis de cor e perseguindo ferozmente o célebre lápis cor de pele, um rosa creme muito claro, para colorir as suas representações humanas, que independentemente da etnia do autor, são sempre caucasianas.

A hora é livre, o desenho é livre e eu abandono-os à sua criatividade enquanto me abstenho da minha, apontando numa folha os pacotes de leite consumidos pelos alunos durante o dia, assim como as faltas que deram no livro de frequências.

Neste ambiente de troca de objectos cilíndricos cromáticos e partilha de ideias feitas linhas e manchas no papel fala-se alto, como aliás se fala em qualquer feira. A Rita, miúda negra de doze anos, pergunta-me: a professora gostava de ser negra?

A pergunta abana-me.
Fosse qual fosse a resposta, ela iria ter sempre um peso decisivo na afirmação da identidade da Rita.
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Identidade é a consciencia que o individuo tem de si próprio, do lugar que ocupa no mundo. A identidade constrói-se nas experiências vividas através de um jogo de identificação no qual uma pessoa assume características do seu grupo, ou seja, cada um constrói o seu eu através das relações que estabelece com os outros.

O desejo mais primário do homem é o de ser amado e este ideal de ser aceite leva-o a corresponder a uma série de expectativas do outro, tornando-o obediente, fazendo com que a sua identidade seja moldada em troca de estima condicionada.

Na infância, o pincel que desde o inicio dá cores ao nosso retrato está nas mãos da família que nos pede que sejamos aquilo que ela deseja e não aquilo que somos. Mais tarde na adolescência passamos a identificar-nos com o nosso grupo de pares e a olhar-nos com os olhos dos outros.

Esta identidade pessoal e social são dois lados juntos, o de dentro e o de fora. O individuo possui uma identidade real, a dele, aquela que é a sua na realidade, e uma identidade virtual que lhe é atribuida pelos outros e que não lhe pertence, que ele vai construindo conforme as situações, com a finalidade de agradar.

O problema da identificação é que torna o individuo como alguém moldado pela ideologia dominante, interiorizando imagens consideradas perfeitas pela sociedade. Daí, que ele tenha dificuldade em aceitar quem não corresponda moral ou fisicamente a estes modelos sociais, impondo-lhe um estigma.
O sujeito que possui uma marca física que o torna diferente dos outros sente-se como alguém normal, igual aos outros, como se não a tivesse porque essa marca não o diminui. No entanto, o resto da comunidade, exclui-o fazendo-o sentir a toda a hora a incapacidade que essa marca lhe confere, fazendo com que ele se sinta marginalizado e desprezado.

Penso que o único modo de tentarmos resolver o problema de afastamento do outro que não se identifica connosco, seja porque motivos for, é libertar-nos das teias de aranha que prendem os nossos sentimentos e pensamentos em relação ao modo como encaramos o corpo do outro, tornando-nos aberto e livres do paradigma ditado pela sociedade.
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Respondi à Rita, explicando o meu ponto de vista sobre a cor da pele tantas vezes questionado por mim ao longo do processo da construção da minha identidade.

"A cor da nossa pele é um acidente. Não pode ser mudado. Mas o nosso carácter não é um acidente. Depende de nós. Se fores boa pessoa os outros gostarão de ti por fora e por dentro e tu gostarás de ser negra."

Fosse qual fosse a resposta, ela iria ter uma peso decisivo na afirmação da identidade da Rita.

da Leonor



Publicado em 25 de Julho de 2005 no blog Ex Improviso http://leonoretta.blogspot.com

Carta à Directora



No ano passado quando verifiquei a morada da escola onde fiquei colocada, as minhas orelhas começaram dolorosamente a ferver como sempre acontece quando sou tomada de um terror súbito e violento.

Todavia, não tinha motivo para tal pois fora eu a grande culpada de ter ido lá parar. Curiosamente foi logo a primeira escola da minha escolha. Mas juro! Juro que quando coloquei o código da escola no boletim eu não sabia o que estava a fazer. Não sei o que se passou. Não me lembro.

A zona da escola é famosa pela sua baixa condição social e económica. Mas eu também já tinha alguma experiência de outras escolas situadas em zonas menos convidativas e pedi ao meu anjo para me convencer do meu destino.

Cheguei à escola, muito bem disposta, por acaso. O sítio… deserto e bolorento. E ao longo do ano sempre o achei deserto e bolorento. Não obstante, a escola era bonita.

Tu, directora, simpática. Muito. De sorriso franco, cabelos caídos nos ombros, já branqueados, com uma franja que te conserva o ar revolucionário e idealista dos estudantes dos anos 70, logo começaste a falar dos miudos da minha turma. Um por um, mostrando que os conhecias como as linhas da palma da tua mão. E conhecias. Recebeste-me de braços abertos que assim se mantiveram durante o ano inteiro em que trabalhámos juntas.

Tu, Luísa, calma, benevolente, experiente das necessidades afectivas das crianças pela sua atitude desafiadora, disfarce de medos infindáveis de maus tratos psicológicos e físicos pela parte daqueles que deveriam ser os seus mais queridos. Progenitores, alguns ausentes, outros presentes mas sempre ausentes.

Tu, Luísa, tão diferente de mim, explosão de sentimentos estapafúrdia que transforma tudo o que vê e ouve ora em brisa fresca de palavras doces ora em rajadas de gritaria ventosa se as coisas não correm consoante o desejo do meu Id, qual criança na sala de aula a puxar a camisola da professora para se fazer ouvida.

O teu gabinete tão perto da minha sala deixava-te ouvir, nas tais colunas de vento ciclónico, tantas vezes acompanhadas de trovoada, os meus apelos ao sentido de dever dos miudos, para cumprirem as regras de sala de aula. Mas, tu nunca te rebelaste contra os meus aguaceiros.

Ensinaste-me, Luísa, que se pode acreditar nas pessoas e, que se acreditarmos nelas elas escolherão sempre o melhor caminho para si e para os outros.

Ensinaste-me que não devo ter medo de morrer pela boca como o peixe, como geralmente sempre morro, por dizer sempre o que sinto, se o que sentir for a pensar no bem do outro.

Ensinaste-me também que não é a zona, que não é a população dessa zona que faz uma escola impossível mas que é o empenho dos professores que tornam a escola possível.

Agora as aulas acabaram. As reuniões brevemente chegarão ao fim e o último dia da minha estadia na escola também virá. E eu já choro uma escola que me fez tremer só de ouvir o nome e uma directora que me mostrou que não há escolas impossíveis quando os professores pensam nelas como as melhores da freguesia.

Despeço-me de ti, repetindo o brinde feito pela Sofia, no nosso almoço de fim de ano “para o ano todos juntos outra vez”.

da Leonor


Publicado em 18 de Julho de 2005 no blog Ex Improviso

Varinha de Condão



As aulas acabaram. Agora começa o trabalho de “secretaria” até chegarem as férias propriamente ditas: fazer as avaliações; decidir em Conselho Escolar quem fica retido e quem transita de ano; fazer as matrículas para o próximo ano; preencher os papéis do rendimento mínimo para garantir aos miúdos de baixa condição económica livros gratuitos para o próximo ano, e mais mapas para fazermos os registos mais inúteis que houver para fazer.

Estava sozinha na minha sala, sentada à minha secretária a preencher as folhinhas das avaliações, quando alguém demasiado pequeno para os seus oito anos acabados de fazer, se assoma à porta, esboçando um ar de surpresa por me ver: óia a puchoia.
Reconheci a deficiência na fala. E levantei os olhos das folhas que preenchia para ver o miúdo de quem já morria de saudades.

- Olá Duarte. Estás bom? – saudei-o sorrindo.

O meu sorriso foi um convite para ele entrar pela sala dentro e vir até junto de mim. Mas mesmo que não tivesse sorrido ele teria entrado na mesma porque o Duarte é dos espíritos mais despojado de restrições que eu conheço.

- Ó puchoia… vais ficá aqui até ó fim da escoia?
- Vou.

E continuei a preencher fichas.

- Atão eu venho amanhã. Adeus puchoia.

E desapareceu antes que eu lhe agradecesse a visita e lhe retribuísse o adeus.

Ao longo de todo o ano lectivo, o Duarte nunca trabalhou como os colegas. Dotado de uma enorme desmotivação, um pouco conflituoso, não conseguia estabelecer um ritmo de trabalho constante. Facilmente se aborrecia do livro de leitura, do livro de matemática, de pintar o desenho… na leitura colectiva, baixava a cabeça e cerrava os dentes.

Algumas vezes adormeceu em cima da secretária… os colegas, vendo que eu apelava ao respeito pelas necessidades do colega, não importunavam.
E eu, simplesmente fazia o que o meu coração mandava, deixava o miúdo dormir, tentando entender que espécie de vida teria ele fora da escola que o levaria a um procedimento tão caprichoso e volúvel.

Tantas vezes cheguei a pensar que era eu…que a culpa era minha.

Mudou de lugar várias vezes, a seu pedido, ora sozinho, ora acompanhado… algumas vezes interessava-se por outras coisas que via na minha secretária e eu dava-lhe, dava-lhe tudo, só para lhe comprar um pouco daquele interesse sempre ausente.

Mas se eu me sentava junto dele, com livro, lápis, borracha e afia, e fizéssemos os exercícios um a um, ele já se interessava e trabalhava. Mas nem sempre eu podia sentar-me junto dele. Eu tinha uma turma inteira para orientar e, enquanto isso, o tempo ia passando e o Duarte não aprendia. Noções de leitura, escrita e aritmética precárias… conhecimento da realidade envolvente… reduzida.

Tentei sempre corrigir-lhe as palavras mal faladas - era a minha obrigação como professora - escrevendo-as no quadro e soletrando as sílabas. Mas ele sempre falou assim como se fosse um miúdo de três anos. E todos o percebíamos, e eu até achava graça.

Na feira do livro comprei uns livros engraçadíssímos a pensar no entusiasmo do Duarte. No dia seguinte, sentei-me junto dele, e coloquei os livros em cima da mesa. Ele abriu-os e riu-se. Quando abria as páginas uns bonecos tomavam forma em três dimensões. Á medida que íamos lendo, eu ia perguntando o significado das palavras.

- O que é uma fada?- perguntei-lhe.
- É uma pechoa boa.- respondeu-me.
- E o que é uma varinha mágica?
- É um pau que ela tem na mão c' uma estela na ponta.
- E para que serve?
- Seve pa fazê nachê coisas.

Serve para fazer nascer coisas!
Ah! Duarte, Duarte. Eu estava preocupada por não saberes os sons diferentes que o X tem nas palavras e tu dás-me uma das respostas mais lindas e, a única possível, que explica o desejo louco que todo o ser humano tem de possuir objectos mágicos: fazer nascer coisas, as coisas que não temos e que queremos.



da Leonor



Publicado em 7 de Julho de 2005 no blog Ex Improviso http://leonoretta.blogspot.com

Soldadinho de Chumbo



Sou tendenciosa como professora. Tenho a mania compulsiva de pintar massas cinzentas de cor de rosa numa tentativa de incutir nas crianças que a felicidade também se encontra nos erros que cometemos pela vida fora, ou, noutra via de pensamento, nos acasos do destino, e que a esperança é a possibilidade que o homem tem, numa complexidade sistémica Moriniana, de não cairmos numa entropia.

Por outras palavras menos académicas, quero transmitir que a esperança é a oportunidade repetida que nós temos de podermos conjugar o nosso eu com os outros “tus”, qualquer criatura do mundo, e que essa capacidade é inesgotável porque sentimos e pensamos.

Mas para quebrar essa força que imprime tal orientação rosada dos finais felizes, quase no final do ano lectivo, conto a história do Soldadinho de Chumbo.

O Soldadinho não tem uma vida, propriamente, feliz. Começa logo a sua existência sem uma perna porque o acaso do destino ou o seu anjo da guarda fez com que lhe faltasse o chumbo aquando da sua criação pelo que já não é igual aos outros soldadinhos.

Mas nem por isso o Pedrinho deixa de considerar o soldadinho perneta o seu preferido o que quer dizer que há sempre alguém que gosta de nós. E nem por isso, o soldadinho deixa de se apaixonar pela bailarina que vive na orla da lareira o que significa que os limites do seu corpo não condicionam os limites do seu espírito.

Ao brincar com o soldadinho o Pedrinho esquece-o no parapeito da janela. O vento fá-lo cair para próximo de uma sarjeta. Empurrado pelas águas da chuva cai no esgota e vai parar ao rio. É engolido por um peixe. O soldadinho sofre horrores.

Mas o acaso do destino ou o seu anjo da guarda faz com que o referido peixe vá parar ao lava louça da mãe do Pedrinho e o soldadinho volta ao quarto do Pedrinho e à sua bailarina.

Agora os dois vivem na orla da lareira. Ele sem a perna. Ela com a perna no ar num passo de dança para o seu soldadinho.
A janela, mal fechada, abre-se de repente. E o vento…vuuuuuuuuuuuuuu, empurra-os para a lareira acesa. O fogo uniu os dois amiguinhos para sempre num coração com uma fivela, símbolo de um acordo eterno de esperança e felicidade.

O soldadinho não teve uma vida feliz, mas teve momentos felizes.

Ultrapasso a parte final a correr pelas sílabas para não perceberem o tremelique dos sons nas cordas vocais. Todavia, as crianças, formas de pensamento selvagem na emoção, percebem-no. Calados, esperam que eu me recomponha devagar para que eu lhes dê tempo de se recomporem a eles próprios.


da Leonoreta


Publicado em 1 de Julho de 2005 no blog Ex Improviso http://leonoretta.blogspot.com